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sábado, 24 de fevereiro de 2024

O campeão culposo!

O Brasileirão de 2023, que me deixará péssimas lembranças e, depois de 55 anos de vida, uma vontade absurda de mandar o futebol para aquele lugar, está terminando. A rodada do meio de semana, a antepenúltima, praticamente definiu quem será o campeão culposo deste ano. A vitória do Palmeiras, aliado ao empate do Botafogo e a derrota do Flamengo para o Atlético Mineiro, praticamente garantiram o bicampeonato para o clube paulista. Mas, calma aí, como estamos falando de um campeão culposo, aquele que não tem a menor intenção de ganhar, é melhor esperar até a última rodada.

No Direito, o homicídio culposo, previsto no Código Penal em seu artigo 18, inciso II, ocorre quando alguém mata outra pessoa sem querer, sem ter a intenção, mas por causa de uma conduta imprudente, negligente ou imperita. No caso do futebol, analogamente, todos os clubes que concorreram pelo título com o Botafogo fizeram, ao longo das 38 rodadas do campeonato, um esforço colossal para não erguer a taça. Definitivamente, eles não queriam ser campeões. Mas, demonstrando uma incapacidade épica, o alvinegro carioca conseguiu entregar para sua torcida o maior fracasso já visto na competição.

Após realizar o melhor primeiro turno da história e abrir 13 pontos de vantagem em relação ao segundo colocado, bastava ao Botafogo realizar uma campanha de meio de tabela para conquistar o título. Manifestando total despreparo psicológico, o time literalmente amarelou. Emocionalmente destruído, as deficiências físicas, técnicas e táticas afloraram. A campanha no segundo turno é tão ridícula, que o clube estaria entre os rebaixados. A magia inicial se transformou em um terrível pesadelo que nem os antidepressivos mais potentes são capazes de dar algum alívio ao maltratado torcedor.

A derrota para o Palmeiras foi, animicamente, a derrocada do Botafogo, contudo, a perda do título não se deu apenas neste momento. Há anos venho afirmando que a colocação final no campeonato depende, sobretudo, dos pontos perdidos em relação aos clubes que estão na parte inferior da tabela. Vejamos o caso atual. Entre os times que estão brigando contra o rebaixamento, o Botafogo só venceu, no segundo turno, o América Mineiro e o Bahia. Empatou com o Goiás, com o Santos e com o Coritiba, ou seja, deixou de conquistar 6 pontos. E o Botafogo ainda perdeu para o Cuiabá, no Nilton Santos. O leitor pode se perguntar, e a derrota para o Vasco? Seriam mais 3 pontos, contudo, usando uma das frases mais folclóricas do futebol, “clássico é clássico e vice-versa”.

A exaustão emocional ficou explícita em diversas situações. Primeiro, na quantidade de gols que o alvinegro carioca levou nos derradeiros minutos que resultaram em viradas, como a do Palmeiras, ou empates contra o Bragantino, contra o Coritiba e também contra o Santos. São muitos e irrecuperáveis pontos que foram desperdiçados. Outro momento que denota o despreparo emocional é o nervosismo com que a equipe passou a entrar em campo na medida em que o título se aproximava. O descontrole resultou em erros crassos de posicionamento, de passes, de lançamentos, de finalizações e de faltas desnecessárias. A expulsão do meia Eduardo, na última partida contra o Coritiba, é um exemplo claro e límpido do que estamos falando.

O mais difícil neste momento é pedir algum tipo de racionalidade aos torcedores do alvinegro. Eu mesmo, inicialmente, cheguei a advogar que o Textor deveria mandar todo mundo embora, afinal os atuais atletas se transformaram em sinônimo de derrota, de fracasso, e montar um time totalmente novo para a próxima temporada. No entanto, não é dessa forma que se constrói uma equipe competitiva no futebol profissional.

Se um leitor curioso procurar a crônica que escrevi no início do Brasileirão, avaliando o que deveria ser a competição, deixei claro que o Botafogo, apesar de ter jogado muito mal o Campeonato Carioca, tinha um elenco para ficar no meio da tabela e, com um pouquinho de sorte, poderia beliscar uma vaga na primeira fase da Copa Libertadores da América. A expectativa inicial se transformou em realidade, o que não significa que o torcedor botafoguense não tenha o direito, mais límpido e justo, de estar devastado emocionalmente.

Há dois anos, o Botafogo estava afundado em dívidas, amargando a Série B e, mesmo retornando a elite do futebol brasileiro, nenhum torcedor em sã consciência acreditava que o time permaneceria na Série A. O elenco que foi campeão em 2022 era extremamente frágil e infinitamente inferior ao atual. Lembro que na época escrevi uma crônica, em tom de chiste, sugerindo que o Botafogo continuasse os próximos dez anos da Série B recebendo a cota da Série A. Assim, seríamos campeões diversas vezes e conseguiríamos resolver as periclitantes questões financeiras.

Talvez, dentre as SAFs mais recentes, o Botafogo seja o caso de maior sucesso. O Textor, ao assumir o clube, planejou a manutenção do Botafogo na Série A em 2022, conseguir uma vaga para a Copa Libertadores da América em 2023 e começar a realmente disputar os títulos em 2025. Até o momento, analisando de cabeça fria, o que não é fácil, todos os objetivos foram atingidos. Em outras palavras, não é a hora de simplesmente jogar fora toda a água da bacia com o bebê junto. Apesar da imensa dor que todos os botafoguenses estão sentindo, não é terra arrasada!

Entendo que o Tiago Nunes, contratado há pouco, deverá ser o treinador para 2024. Espero que, ao longo da temporada, o trabalho da Comissão Técnica não seja interrompido como aconteceu, por forças externas, com Luís Castro. A manutenção de um trabalho, desenvolvido por profissionais competentes, vejam o caso de Abel Ferreira no Palmeiras, não pode ser afetado pelas oscilações que são comuns ao longo de uma temporada.

Em relação aos atletas, haverá, como de praxe, a venda de alguns deles, como o Adryelson e o Lucas Perri que deverão jogar no futebol francês, além da devolução de jogadores que estão emprestados e que não desempenharam o papel esperado. Eu entendo que a renovação do elenco é um elemento que pode trazer maior motivação e qualidade ao clube, mas é preciso manter uma espinha dorsal.

É primordial que os dirigentes que comandam o Botafogo pensem com muito carinho na chegada de um verdadeiro líder, capaz de conduzir o time não só nos momentos de tranquilidade, o que é fácil, mas sobretudo nas dificuldades. Não estou sendo saudosista, mas faltou ao atual time do Botafogo uma espécie de Seedorf, o cara que chama a responsabilidade para si quando as coisas não estão indo bem e para quem os demais jogadores olham como um porto seguro no meio das turbulentas vagas que surgem ao longo de uma temporada. O momento é doloroso, mas meu coração será eternamente alvinegro!

Autor:

Luiz Henrique Borges

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