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sábado, 24 de fevereiro de 2024

Black Friday, Cyber Monday e Black Sabbath

Noite de quinta-feira, Dia de Ação de Graças, Cida e Ozzy aguardam o início das promoções da Black Friday, sem grana para gastar. Black Friday sem dinheiro é como pular carnaval com a esposa: o cara assiste as oportunidades passarem e não pode fazer nada. Pouco antes de começarem as ofertas arrasadoras, o telefone toca. É a “gramma” (vovó, em inglês) Lucy, pedindo que Ozzy volte para casa. O vô Thomas faleceu e ela está arrasada.

Largaram tudo e foram consolar a gramma. Ozzi perdeu os pais muito cedo e foi criado pelos avós britânicos. O avô, ator shakesperiano amador, lembrava o neto que o Bardo dizia que a vida é um palco e cada um deve recitar o seu papel. Só que o papel de Ozzy não foi bem ensaiado. Tentou profissões da moda como Terapeuta Vibracional, Harmonizador Facial, Alinhador de Chacras, mas não se deu bem em coisa alguma. Thomas foi cremado, o casal passou o fim de semana consolando Lucy e a Black Friday foi para as cucuias. 

Os avós viviam bem e viajaram bastante antes de se mudarem para o Brasil. Nunca aprovaram o casamento da única filha com um corretor zoológico (bicheiro) e trambiqueiro. Perderem uma boa grana no Plano Collor e nas inúmeras vezes que precisaram livrar o genro da cadeia. Por isso, criaram o neto com rédeas curtas e nada de dinheiro fácil. Ozzy ensinou os avós a navegar na Internet e eles se tornaram compradores vorazes. Dia sim, outro também, chegam pacotes do Brasil e do exterior que guardavam no “esconderijo secreto” do porão, onde ninguém podia  entrar. Lucy é acumuladora compulsiva e nunca se desfaz de nada, mesmo aquilo que não mais serve, está fora de moda ou não funciona.

Cida voltou para seu apê pensando na repescagem de Black Friday, a Cyber Monday. Quem sabe ainda tem algo bom, barato e talvez útil. Pensou muito na conversa que teve com o namorado. Se a avó liberar a herança, poderão se casar e viver bem. Além do imóvel, os avós devem ter uma boa grana. Porém, mal chegou no aperto e Ozzy telefonou dizendo que o coraçãozinho da gramma não aguentou e também parou de bater.

Após o segundo funeral, Ozzy e Cida encontraram a combinação do cofre e pegaram os controles financeiros para inventariar os bens, conferir o saldo bancário e calcular a herança. Levaram um susto. Não tem muito dinheiro no banco e a casa está hipotecada. Entre fungadas e lágrimas nasais, Ozzy se perguntava: como os avós gastaram toda a grana? Pegaram a chave do esconderijo e o susto foi ainda maior: um sem número de bugigangas e outras mais que, dois meses após as mortes, continuaram chegando e as faturas do cartão de crédito vencendo.

Os avós eram organizados e tudo o que compraram estava classificado por categorias. Em Cuidados Pessoais, tônicos capilares, cremes antirrugas, anti “age”, Goji Berry, shakes de emagrecimento, Ora Pró Nobis, pulseira antiestresse, meias contra varizes e suplementos de eficácia duvidosa. Em Produtos Sexuais, massageadores, vibradores, aparelho para aumentar o pênis (com uma lupa na caixa), produtos para disfunção erétil, adstringente Virgin Again, vídeos pornôs, gel milagroso, cremes, lingeries, brinquedos e jogos eróticos.

No espaço Fitness, esteiras, sais de banho, bicicletas ergométricas, cintas modeladoras, pantufas com aquecimento elétrico, cadeiras massageadoras, máscaras de mergulho (eles não sabem nadar) e vários itens que eles ninguém sabe para que servem.

Em Diversos tinha tudo o que é vendido na Internet: facas especiais, panelas antiaderentes, frigideiras eletrônicas, 8 tipos de cafeteiras de cápsulas, 6 Air Fryer, máquina de fazer Soda, pão, iogurte, eletrônicos controlados pelo celular, assistentes virtuais Google, Siri, Alexa, Bixby, Cortana e muitas coisas que os avós nem sabiam usar, tudo na embalagem original. Sapatos femininos, do 34 ao 41 (a avó calçava 36), carteira antifurto, aparelhos adaptados para idosos, livros de Auto Ajuda e DVDs de dança de salão, idiomas, culinária da Rita Lobo, da Palmirinha, aeróbica, Pilates, ginástica da Jane Fonda, produtos anunciados por artistas da TV, cursos de Leitura Dinâmica e outras coisas que um dia estiveram na moda. Numa pequena caixa, a etiqueta “Para Ozzy” que ele, desapontado, não quis abrir.

  • Nossa! Seus avós gastaram todo o dinheiro com essas bugigangas.
  • Idosos compram tudo o que a Internet oferece e sempre caem em golpes. Eu só queria um mísero relógio da Apple e eles me regulando.
  • O que você pretende fazer com isso?

O lado bom da herança é a casa hipotecada e centenas de bens fora de moda ou inúteis. O lado ruim é, bem, como pode ser pior que isso? Após algum tempo pensando, Cida disse que o bom marketing vende qualquer coisa e não falta no mundo gente para comprar o que não precisa, com o dinheiro que não tem para ostentar para quem não gosta. 

Montaram um comércio eletrônico de produtos “vintage” e “retrô”, nomes pomposos para coisas bregas e inservíveis, com preços bem superiores ao pago pelos avós. O negócio bombou, eles transformaram o porão em centro de distribuição e em um ano liquidaram a hipoteca e se casaram, graças aos avós Thomas e Lucy, que criaram o neto com rédeas curtas e deixaram um legado de tranqueiras “vintage”. Cida lembrou da caixa “Para Ozzy”. Ele abriu e descobriu um toca discos de vinil da Oba Bom e LPs de uma banda inglesa. 

  • Black Sabbath? Será o que vem após a Black Friday na Inglaterra? – perguntou Cida.
  • Nunca ouvi falar. Vamos tocar o LP para saber do que se trata.

Perderam Black Friday e Cyber Monday, mas viraram fãs da banda Black Sabbath e Ozzy descobriu a origem do seu nome: Ozzy Osbourne, vocalista, tão estranho quanto ele. Vida que segue!

Laerte Temple
Laerte Temple
Administrador, advogado, mestre, doutor, professor universitário aposentado. Autor de Humor na Quarentena (Kindle) e Todos a Bordo (Kindle)

6 COMENTÁRIOS

  1. Laerte, sua crônica está tão diversificada quanto os produtos do porão do avô Thomas. Muito bem escrita. Consegui visualizar a montanha de caixas enquanto estava lendo. Parabéns!!

    • Obrigado pelo comentário, Deise. Inspirado na vida real. Conheço várias pessoas que têm dificuldade para se livrar de tranqueiras. Uma sou eu. KKK.

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