“Assassinos da Lua das Flores” e a visão do genocídio como espetáculo – Erich Ruy Erzinger Alves

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O filme Assassinos da Lua das Flores não hesita em escancarar a maldade e a ganância presentes nos interesses do homem branco, que normaliza e trata como padrão a exploração hegemônica de um povo alheio (atual, não?). 

Toda a dubiedade gerada dentro da psique do protagonista em relação às suas intenções com sua esposa Mollie – principal representante da tribo dos Osage no filme – afetadas por sua relação com seu tio, são o que dão a mais densa profundidade a estes personagens. Você vê nitidamente a objetificação das relações humanas vitais como forma da obtenção do vil lucro, advindo do famigerado ouro negro. Disputas matrimoniais escalam-se à níveis brutais, onde Mollie, magistralmente interpretada por Lily Gladstone, vê com seus próprios olhos a sua ruína e de seu povo. O espectador encontra o expoente de todo esse caos em Ernest, o protagonista, em mais uma excepcional perfomance de Leonardo DiCaprio. A dualidade do homem nos é apresentada. Como uma figura admirável, nos é introduzido o personagem de Robert DeNiro, Bill Hale, que lentamente vai revelar sua faceta duvidosa e tendenciosa, sempre como um fator preponderante na objetificação das relações entre Ernest e Mollie, atuante em um plano oculto para a herança destinada à Mollie.
Gosto de como, apesar de ter se consolidado como eclético nas suas produções recentes, Scorcese ainda traz características de uma estrutura única e particular. O final mostra muito isso. Após tudo que vimos ser narrado, nos deparamos com um epílogo metalinguístico que – sem spoilers – une um estilo típico do Scorcese (que remete muito à “O Rei da Comédia”, por exemplo) com uma certa crítica à cultura do espetáculo, onde toda barbárie é cabível de se tornar produto de entretenimento. 
O filme como um todo se destaca, ainda mais no cenário atual do cinema mundial. Talvez a indicação deste filme em premiações como o Oscar possa trazer mais relevância às produções artísticas não tão focadas apenas no puro entretenimento, e sim em uma maior abordagem do conteúdo, no geral. Oppenheimer foi um exemplo disso, apesar de seu acidental marketing e de sua intrínseca tendência à desvinculação com a subjetividade artística por meio da típica expropriação do esquematismo dos filmes do Christopher Nolan. Não seria imaginável ver um filme de 3 horas, com um suposto renome cinematográfico, ter ganhado a relevância que ganhou. Claro, são dois casos diferentes. Mas, apesar de Assassinos da Lua das Flores não ter tido a “sorte” de ser transformado em um meme baseado em uma situação comparatória com um blockbuster família (leia-se, fenômeno barbenheimer), ainda assim eu percebo uma resistência de tais modelos de filmes, divergentes do método da cultura de massa vigente. 
Scorcese está vivo. O cinema está vivo

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