A realização de um show, quando se trata de um pop star, precisa ser cercado de cuidados que vão além da escolha do lugar que caiba muita gente e o valor de ingresso que será cobrado dos fãs. O trato do processo de forma simplória, focado apenas no marketing arrecadatório, pode transformar o sonho em pesadelo, um show de alegria e contemplação em show de horrores.
Infelizmente os shows da estadunidense Taylor Swift realizados no Rio de Janeiro ganharam contornos de horrores. Uma série de equívocos, para ser generoso com a realidade, transformou a alegria em tragédia, o sonho em pesadelo. É óbvio que não poderia faltar o “jogo de empurra” entre os atores envolvidos na realização do espetáculo, considerando desde a artista com seu staff, a empresa organizadora do evento e os poderes públicos em suas competências de autorização, acompanhamento e fiscalização do cumprimento das leis vigentes no país. Todos falharam! Todos são, de alguma forma, cúmplices dos horrores que acabaram ceifando duas vidas.
Enquanto a prefeitura do Rio divulgava uma arrecadação de milhões para a Cidade e o Santuário do Cristo Redentor desafiava os fãs a uma arrecadação social destinada às pessoas em situação de vulnerabilidade em troca de projeções temáticas na estátua do Cristo, adolescentes e jovens se aglomeravam em torno do estádio anfitrião do show enfrentando a pior onda de calor do século. Os organizadores transformaram o estádio em um verdadeiro caldeirão, utilizando tapumes que diminuíram a ventilação e uma estrutura metálica para proteger o gramado que acabou provocando queimaduras de segundo grau em algumas pessoas. Até aqui, o contexto do evento e seus horrores ainda não foram totalmente descritos.
Apesar do sistema de meteorologia já ter anunciado a onda de calor, com recordes de temperatura, nenhuma providência foi tomada para amenizar a saga dos fãs que tentavam se proteger com sombrinhas e toalhas improvisadas. Como o show estava previsto para o início da noite, desde a madrugada já existia fila em busca dos “melhores” lugares. Algumas pessoas já haviam passado mal devido ao calor escaldante nas calçadas do entorno ao estádio. A tragédia estava anunciada quando o público foi impedido de entrar com água, deveria comprar na parte interna por preços exorbitantes. Quanto oportunismo perverso! A situação estava dantesca, obrigando o público a entoar coro de “water, water, water” (água, água, água) durante a apresentação da cantora. A primeira tragédia no show de horrores aconteceu logo na segunda música, quando uma jovem passa mal e desfalece. Morreu ao realizar um sonho de fã. Seu corpo foi passado por cima das grades, levado ao hospital e o show continuou normalmente, menos para aquela jovem. Muitas pessoas passaram mal, desidratadas, estafadas de uma maratona de enfrentamento ao calor durante todo o dia.
Ao pesquisar as músicas da Taylor Swift deparei-me logo com “Cruel Summer”. Sua letra é uma narrativa de relacionamento reconhecidamente nefasto, mas que se “paga para ver”, como diz na gíria. O “Verão Cruel” foi anunciado, mas todos pagaram para ver. A primeira frase da música diz: “Fever dream high in the quiet of the night” (Sonhos alucinantes no silêncio da noite). Embora estejam em contextos distintos, a frase poderia expressar perfeitamente o que aconteceu naquela primeira noite de show, onde somou-se à emoção em estar diante da artista todos os acontecimentos prévios de esgotamento físico e mental.
Diante da repercussão da tragédia, amplamente abordada pela imprensa, as “autoridades públicas”, até então inertes, se posicionaram em defesa dos fãs e contra os organizadores do evento e suas atitudes “cruéis”, como a impossibilidade de portar água ao ingressar no estádio. No segundo dia de show o Sol continuava imponente e destruidor. Os fãs pouco falavam da tragédia do dia anterior e enfrentava a mesma saga em busca dos “melhores” lugares. Como providência os organizadores adiaram o evento, mas o fizeram depois que o estádio já estava lotado e pouco antes de seu início. Mais um horror da insensatez dos organizadores que continuaram tomando decisões aleatórias, como o adiamento em uma hora para o início do espetáculo nos dias subsequentes, tentando amenizar as condições insalubres do tempo. Parece que não conhecem os fãs. Acreditar que adiando em uma hora o início do show iria retardar a chegada deles ao estádio é, no mínimo, uma grande ingenuidade. Na prática somente estendeu em uma hora a permanência das pessoas nas ruas perigosas do Rio.
A violência no Rio é de conhecimento de todos, fazendo vítimas diariamente em diversas frentes de atuação da criminalidade, e não poderia poupar os milhares de fãs que chegaram à Cidade Maravilhosa. Foi na praia mais conhecida do Rio e do Brasil que ocorreu mais um horror quando um grupo de amigos, que vieram ver Taylor Swift, desfrutavam das belezas de Copacabana à noite e foram assaltados por dois indivíduos que tinham acabado de serem liberados por uma audiência de custódia após cometimento de roubo, apesar de várias passagens pela polícia. Um jovem foi esfaqueado e morreu. A polícia agiu rapidamente e prendeu os autores do assassinato. A população não quer uma polícia que aja somente após o crime e sim que se antecipe a ele, principalmente quando é clara a possibilidade de acontecer, no caso, a presença de muitos turistas jovens.
Continuando com os horrores, saindo das tragédias, mas permanecendo no submundo desse show, os carros que atendiam a equipe da cantora foram flagrados transitando pelas ruas da cidade com as placas cobertas por plásticos. Pasmem, mas a desculpa dada foi de que teria sido uma orientação de guardas municipais para que os veículos pudessem transitar por faixas exclusivas, evitando engarrafamentos, sem serem multados. Será que a equipe da cantora buscou maneiras de burlar nosso código de trânsito? Será que foram os guardas municipais que tentaram ser “gentis” e orientaram como burlar nosso código de trânsito? Ou será que foi a certeza de impunidade a base desse acordo? O resultado das investigações nos dirá.
Por fim, os oportunistas de plantão, estou falando dos políticos, já apresentaram alguns projetos de lei tornando obrigatório a distribuição de água em shows. Como em outras realidades, é provável que esta lei seja conhecida por Lei Ana Benevides, homenagem à fã que morreu dentro de um estádio tentando realizar um sonho: assistir o show de sua “loirinha”, como ela carinhosamente tratava a cantora Taylor Swift.
(Texto escrito em novembro de 2023)
Autor:
Manoel Júnior