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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

É arroz com feijão e não Bacalhau à Lagareiro

Todos aqueles que acompanham as crônicas sabem que, em nenhum momento, falei que a conquista do Campeonato Brasileiro pelo Botafogo eram favas contadas e, como estou quase sempre com o nariz entupido, fruto de um vício no tal do descongestionante nasal, não sinto esse tal de cheirinho que alguns são capazes de experienciar. Ao mesmo tempo, eu não sou néscio e reconheço que não é fácil, em um campeonato competitivo, em que os clubes naturalmente oscilam, reduzir uma considerável diferença de pontos.

Sinceramente, não sei se, o até então, encaminhado título botafoguense será conquistado. O alvinegro, após uma excelente campanha no primeiro turno que lhe deu uma boa margem de gordura em relação aos demais postulantes ao título, viu a vantagem ser reduzida após as estultas decisões do arrogante comandante português, Bruno Lage. O meu pessimismo não advém do encolhimento da vantagem, que ainda é significativa, mas os equívocos do lusitano tiraram a identidade, o rendimento e, talvez, o mais grave, a confiança da equipe. Um ser humano sem confiança não é capaz de atravessar uma rua em segurança.

Vejamos o que aconteceu com o clube do cheirinho. O Flamengo conta com um elenco qualificado e experiente, mas ao longo do ano ele se tornou, nas mãos do também português Vítor Pereira e depois de Sampaoli, o irrequieto argentino, um grupo inseguro. Os fracassos nas diversas competições disputadas são do conhecimento de todos.

Percebo, desde 2019 e da excepcionalidade promovida por Jorge Jesus, uma exaltação aos técnicos europeus, preferencialmente portugueses, como se eles fossem os únicos seres pensantes e donos de todas as inovações táticas e técnicas do futebol. Não foram, não são e não serão. Por sinal, as melhores campanhas lusitanas em Copas do Mundo sempre tiveram brasileiros no comando técnico das equipes. Não estou negando que há uma defasagem, que vem diminuindo, na formação dos treinadores brasileiros em relação aos europeus. Atualmente, no Brasil, é obrigatório, por exemplo, a formação do técnico pela CBF Academy. Os nossos treinadores, que sempre tiveram grande conhecimento empírico, também estão se aprimorando teoricamente.

Precisamos refletir sobre um outro aspecto também. Ao compararmos, hoje, o futebol do velho continente com o nosso é fundamental perceber que é muito mais fácil ter êxito nas inovações táticas e técnicas ou mesmo nas improvisações ou mudanças de posicionamento de jogadores quando os plantéis contam com atletas do nível de Haaland, Kevin De Bruyne, Vinícius Júnior, Mbappé, Modri, entre outros espetaculares atletas.

Os números também podem servir como um bom indicativo. Foram 14 técnicos portugueses que, no rápido levantamento que fiz, aportaram no futebol brasileiro desde 2019. Quais são os treinadores que realmente se destacaram e que farão parte da memória afetiva dos torcedores: Abel Ferreira e Jorge Jesus. Mesmo sem conquistar títulos, o Luís Castro fez no Botafogo e o Pedro Caixinha realiza no RB Bragantino, trabalhos que podem ser considerados qualificados. Na restrita lista que elaborei acima, alguém incluiria o Antônio Oliveira, o Jesualdo Ferreira, o Augusto Inácio, o Armando Evangelista, o Paulo Sousa, o Vítor Pereira, o Ivo Vieira, o Pepa, o Renato Paiva e o Bruno Lage? A taxa de bons trabalhos dos treinadores portugueses, pelos meus parâmetros, é de 28,5%.

Isso não significa que sou contra a presença de treinadores estrangeiros no futebol brasileiro e, inclusive, dirigindo a nossa seleção. O intercâmbio é sempre bem-vindo, mas como o próprio nome indica, deverá existir uma troca, ou seja, nós aprendemos com eles e eles aprendem com a gente.

Quando o Textor assumiu o Botafogo, ele trouxe o Luís Castro para comandar o projeto de futebol do alvinegro. O português, com a sua feição fechada, logo entendeu e, em alguns momentos ficou bastante incomodado, com a realidade do nosso futebol. Contando com um elenco em formação, aos poucos, o seu trabalho começou a sinalizar para frutos mais robustos. Assim como Jorge Jesus ou Abel Ferreira, o Luís Castro encontrou o melhor posicionamento para as peças que tinha nas mãos e conseguiu dar um padrão tático para o time. Ele preparou um honesto e bem temperado arroz com feijão.

Quando, seduzido pela “indecente” proposta do futebol árabe, ele deixou o Botafogo e o clube confirmou o nome de Bruno Lage, eu falei para um amigo que o grande perigo que o alvinegro correria, no meio da temporada, era o novo treinador adotar um trabalho completamente autoral e romper com o que estava sendo desenvolvido. O temor não era só meu. Compartilhado por muitos outros analistas, o novo técnico, em sua apresentação, tratou de nos acalmar. Ele afirmou que manteria as características da equipe e faria uma “transição muito pacífica”.

Bruno Lage mentiu! O Botafogo, até então, tinha um estilo de jogo muito bem definido: defesa sólida, transições rápidas pelos lados do campo e um ataque em velocidade. Na prática, Lage saiu mexendo, sem cuidado e treinamento, no desenho tático e nas peças do time, inclusive com improvisações injustificáveis, como colocar o Tchê Tchê na lateral. Nem me atrevo a comentar a desatinada decisão do lusitano de deixar o principal jogador do time, a referência no ataque, Tiquinho Soares, no banco contra o Goiás.

O futebol brasileiro é, eu não tenho dúvida, um celeiro de craques. Nós continuamos formando excelentes “pés-de-obra”. No entanto, como um país pobre, desigual e periférico, os atletas mais qualificados acabam atuando no exterior. Restam, por aqui, as revelações que logo irão para fora do país, os jogadores que não são tecnicamente tão diferenciados e os que retornam ao Brasil, mais próximos do encerramento de suas carreiras. Esses são os insumos que nós temos para a preparação do nosso prato.

O “Master Chef” Bruno Lage, como bom português, chegou ao Brasil sonhando em preparar um sofisticado e gourmet Bacalhau à Lagareiro. Mas o que lhe foi oferecido como insumo foi um pescado salgado e seco, tipo Saithe. Arrogante, prepotente, debochado, com ares de colonizador, Bruno Lage não teve a humildade de adaptar o seu prato, como qualquer bom profissional faria, à realidade dos seus insumos. Por aqui, os bons treinadores sabem, independente de suas nacionalidades, como o Abel Ferreira, como o Vojvoda, como o Dorival Júnior e o Fernando Diniz, que é possível fazer sucesso com um arrozinho com feijão honesto, bem temperado com alho e cebola e, quando possível, como fez Jorge Jesus, acrescido de um delicioso bacon. Era isso que o torcedor botafoguense esperava de você, Bruno Lage, o honesto e nutritivo arroz com feijão. A capacidade e a grandeza também surgem na simplicidade.

Autor:

Luiz Henrique Borges

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