Início Opinião Ele Tinha Razão

Ele Tinha Razão

0

Na TV o jornal da noite ainda mostrava imagens impressionantes da grande enchente na cidade vizinha quando o telefone tocou: era o Grosa. Alguns de seus vizinhos já haviam se mobilizado para auxiliar as vítimas das fortes chuvas, e ele fora encarregado de levar mantimentos, roupas, remédios e outras doações. Queria saber se poderia ajudá-lo. Achei melhor esperar pelo dia seguinte, pois as informações davam conta de que as estradas também haviam sido afetadas, e a chuva continuava forte, mas disse-me que seria uma longa noite para os flagelados se as doações chegassem somente no dia seguinte… Ele tinha razão.

Coloquei uma capa e fui até sua casa. Perguntei-lhe onde estava “a outra metade” da perua que ele iria dirigir, quando me respondeu que “à perua dada não se olha os pneus, motor, amortecedores, etc…”. Verdade… ele tinha razão. Informamo-nos junto a Defesa Civil, carregamos tudo e poderíamos ganhar tempo se pegássemos um atalho. Após remover várias árvores da (deserta) estrada passamos por um casal com um bebê, pedindo carona. Grosa me adiantou que não daria para recusar o pedido e é claro, ele tinha razão.

Fui para a parte de trás, espremido entre as doações. Com o barulho da chuva e do motor não consegui entender nada do que conversavam, mas a perua não demorou a parar e passei para frente novamente. Groselha contou-me que havíamos sido roubados pelo casal que, na verdade, não tinha uma criança nos braços, como parecia. Haviam levado nossas carteiras com dinheiro e documentos, exceto o que estava com o da perua. Verifiquei no porta-luvas, e ele tinha razão.

Não havia muito o que fazer naquele momento, a não ser continuarmos. Logo encontramos a estrada bloqueada devido a uma queda de barreira. Voltamos até Itatiba e antes de pegarmos outra estrada fomos ao posto de um amigo trocar os quatro pneus, pois segundo Grosa, estavam muito gastos e perigosos (ele tinha razão). Seria nossa gratidão (além da preocupação com nossa segurança) ao homem que havia cedido a kombi. Pagaríamos depois, junto com a gasolina.

De volta à estrada, não demorou para um guarda nos parar e aplicar uma multa pela ausência de cintos de segurança. Grosa explicou tudo, mas… ele (o guarda) tinha razão. Mais um pouco de estrada e a porta do lado do motorista… “caiu”… e antes que pudéssemos recuperá-la uma carreta a deixou um pouco diferente de seu formato original. Groselha achou que seria difícil explicar ao proprietário. Lógico, ele tinha razão, mas ao menos conseguimos “grudá-la” no lugar com uma “amarração” que sempre fora especialidade do Grosa.

Já era madrugada e estávamos parados na pista também bloqueada por árvores derrubadas pela ventania e o jeito era aguardar a liberação, o que ocorreria horas depois. Nesse meio tempo um casal que estava no carro da frente passou a brigar feio, quando a mulher saiu e veio em nossa direção pedir ajuda. Grosa disse que iria “sobrar” para nós. Ele tinha razão.

O (nervoso) homem não gostou e passou a chutar a lataria da perua. Precisamos sair na chuva, segurá-lo, aguardar que se acalmasse e ambos voltassem para o carro. Quando finalmente chegamos, descarregamos rapidamente e antes de voltarmos, uma parada numa oficina 24 horas para consertar (e faturar) o freio. Já em casa só havia tempo para um banho e ir para o trabalho. Como Groselha havia dito, (e ele tinha razão) chegaríamos ao trabalho “mais mortos que vivos”. Irritado, disse que por mais que chovesse jamais me meteria numa encrenca (cara, arriscada e cansativa) daquelas novamente, mas me respondeu que “nunca se sabe…”. Desejei que não tivesse razão.

Consegui chegar no horário e, para minha surpresa, todos na empresa haviam tido a mesma preocupação, e eu fora encarregado de levar as doações aos desabrigados. A perua que conseguiram emprestada chegaria logo. O responsável me adiantou que não precisava me preocupar, pois apesar de velha, a kombi tinha quatro pneus e freios novos, além de gasolina suficiente. É… ele tinha razão.

Autor:

Miguel Arcangelo Picoli é autor do livro Momentos (contos) e Contos para Cassandra (em homenagem à escritora Cassandra Rios).

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Sair da versão mobile