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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

A última 3×4

Esses momentos instantâneos que ficam registrados num papel estático, que muitos hoje não conhecem, aquelas fotografias 3×4 tiradas para documentos, carteirinhas da escola, da faculdade, do clube, da passagem escolar, da biblioteca… Eram sempre as piores fotos, saímos tortos, com cara de desânimo, muito escuros ou muito claros. Tentávamos arrumar os cabelos, colocar uma roupa arrumadinha, mas a danada sempre saía ruim.

Depois da era digital, fotografias para documentos são bem produzidas, retocadas, ficam bonitas até para quem é feio! São capturadas várias, até acharmos uma que fique boa. A primeira vez que fiz uma fotografia digital para documento eu nem quis olhar, a moça perguntou se eu queria ver se ficou boa, e eu disse que fotografia de RG sempre fica ruim, não adiantava escolher.

Nessa mesma época, estava ingressando numa faculdade federal, e fiquei surpresa ao olhar a lista de documentos e estava lá, a terrível 3×4. A última. Não sabia que seria a última. Pelo menos, ficou decente.

Acho que essas fotografias, apesar de serem sempre com a mesma expressão, pois não podia sorrir, refletem muito nosso estado de espírito na época. A mais antiga que tenho comigo é aos 14 anos, onde se percebe um olhar de rebeldia adolescente, querendo mudar o mundo, mas também cheia de esperança. Depois, aos 16 e 17 anos, já um pouco mais comportada e tentando entender o que era a vida adulta que estava por vir.

Como casei cedo, aos 18, as seguintes me mostram a evolução do namoro, casamento e divórcio. No namoro e primeiro ano de casamento, toda encantada com as promessas de amor eterno. Alguns anos passados, e era visível o cansaço, a decepção, os quilos a mais, uma tristeza no fundo do olhar. E, coincidentemente, a última 3×4 data de um ano após a separação, visivelmente remoçada, uma expressão serena de quem não tem grandes preocupações, os quilos a mais indo embora.

Não estou aqui a julgar a instituição casamento, mas analisando o meu casamento, em que duas pessoas totalmente imaturas e traumatizadas tentaram se envolver, resultando num fracasso total de convivência. Claro que não foi de todo invalidado, nossas conexões e objetivos eram semelhantes e tivemos muitos bons momentos. Mas a balança final impediu de continuar.

Autora:

Alice Ribeiro Paz da Rosa

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