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O banco de madeira e o sabiá

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Numa cidadezinha do interior da Itália, chamada Spello, havia uma casa lá no alto que era cercada de flores, de encanto, de perfume, era tão linda. As ruas eram verdadeiros jardins a céu aberto. A quem diga que os românticos incondicionais chegavam lá e se apaixonavam pelas formosas e belas paisagens.

Essa casa em especial era peculiar, tinha o formato de um castelo, meio mágica, que remetia aqueles filmes de príncipes e princesas, a quem diga que já foi habitada por uma família nobre. No seu jardim havia um banquinho de balanço de madeira. Um lugar bem aconchegante, para ler um livro, ouvir o canto dos passarinhos, e pensar na vida. E os pensamentos vinham e os devaneios iam, no bailar suave que fazia um barulhinho no seu movimento, regados a um silêncio incondicional.

A lenda dizia que quem ficasse ali por alguns minutos o vento levava suas preocupações, seus medos, suas inseguranças, os sentimentos de culpa, os ressentimentos. E que quando isso acontecia o canto do sabiá ressoava sobre a árvore para anunciar sua cura interior, com sabedoria. Havia filas ao lado de fora dessa casa, talvez porque muitas pessoas precisassem largar para trás tais sentimentos. Era uma espécie de renascimento.

Nessa fila tinham pessoas que levavam a vida com tristezas no coração, que tinham dificuldade de praticar o perdão, que não sabiam ao certo tomar algumas decisões importantes, tinham medos irracionais que muitas das vezes não eram conscientes, que a qualquer preço entravam em discussões porque queriam mostrar seu poder sobre o outro, pessoas que machucavam com suas palavras o comportamento dos outros, que não respeitavam seu espaço e suas escolhas. Algumas delas chegavam lá com suas feições fechadas, onde tudo era um problema, já não conseguiam mais ver as saídas.

Cada um entrava e sentava, as vezes, os casais entravam juntos e ficavam um de frente para o outro. Tinham também muitos idosos, com dificuldades de locomoção, já com alguma dificuldade de compreensão, mas o objetivo deles não era exatamente viver a experiência de sentar ao banco, eles queriam mesmo ter essa oportunidade de poder conversar com mais pessoas e receberem essa tipo de atenção. Ali havia também pessoas de vários países e culturas, era lindo de ver essa miscigenação e que tantas pessoas buscavam transformar suas vidas e ter harmonia para viverem melhor. O banco era imparcial, não enxergava as pessoas pelas suas profissões, seus talentos, seu modo de viver, ele sabia ler as almas.

Aqueles momentos eram verdadeiros bálsamos derramados, onde se ouvia a voz das suas consciências e não havia julgamentos. Eram todos capazes de se regenerarem. Como era lindo ver quando saiam do banco, sua áurea se mostrava com a cor branca, transparente, as mentes entravam em outra sintonia, os pensamentos ruminantes desapareciam, as tristezas profundas iam com o vento, as culpas pousavam sobre os troncos de madeira. As inseguranças se dissipavam pelo chafariz ali presente. Ora, quantas revelações ali se davam. Saiam cobertos de generosidade, de compaixão, de empatia e os sorrisos se espalhavam sobre as flores amarelas, vermelhas, roxas que enfeitavam o entorno.

Essa cidade foi se tornando ao longo do tempo o alicerce da esperança. Todos queria ir visitá-la. Foi se tornando muito conhecida e já não comportava mais de tanta gente na fila para poder experimentar essa mudança. Eram pessoas que vinham de todos os países e continentes, de avião, de trem, de carro. A solução que o príncipe encontrou foi retirar o banco do seu jardim e fazer uma réplica para que cada cidade pudesse ter um nas suas praças. Não sabemos se eles foram carregados desse poder, mas ao certo foi uma tentativa de espalhar essa possibilidade e ser tão acessível a todos que procuravam a verdadeira paz.

Autora:

Raquel Pádua 

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