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A importância da linguagem para a boa saúde

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Em Neuropsiquiatria Analítica a linguagem é de máxima importância.

Logo que comecei a estruturação da NPA, discerni que a vida saudável é aquela que se desenvolve congnitivamente bem, porque toda a realidade é significada, interpretada e, a interpretação, mais ou menos positiva, é o que proporciona sabor ou amargor à vida, visto que o nosso agir é na medida do que entendemos ou do tanto que, de entendimento, carecemos. Sendo assim, devemos potencializar a linguagem e a comunicação. Uma coisa que precisa ficar clara é a diferença entre linguagem e comunicação. Linguagem é um “conjunto mais ou menos móvel de regras mais ou menos mutaveis para representação de coisas, pessoas,  situações concretas (objetivas) e abstractas (subjetivas). Alinguagem precisa do meio, isto é, do objeto, da coisa a ser representada, para que se torne comunicação. A comunicação, obviamente, também depende da linguagem. Quanto mais a pessoa dominar os diferentes contextos linguisticos, mais tenderá a interagir com qualidade, a se comunicar com eficiência e eficácia, o que resultará em boa saúde e em bem-estar de modo geral. Ao referir-me à comunicação não estou limitando-me à transmição e recepção de informações escritas e/ ou faladas. Comunicar _como a própria etimologia nos faz entender_ é, antes de qualquer coisa, “tornar comum”, é “compartilhar de nós”. Em todo momento estamos “compartilhando-nos”, “comunicando”, conscientemente e inconscientemente, com modos de olhar, de caminhar, por diferentes características de expressão facial e mediante outros tantos gestos, acompanhados ou não da fala e/ ou da escrita. Fato é, que toda a nossa comunicação, seja na relação com outras pessoas e situações ou seja de maneira intrapessoal, tem melhor ou pior qualidade conforme o quão desenvolvemos a capacidade linguística, o que faz-nos entender a importância da ampliação de domínio vocabular. Cabe, aqui, observarmos que, para se ter amplo vocabular, convém a ampliação de vivências, de experiências de vida, tanto objetivamente como pela imaginação, pois imaginação gera-nos sensações similares às experiências concretas. E como já a entender aqui, a questão das vivências para ampliar o vocabulário, que por sua vez potencializa o entendimento da vida e, consequentemente, possibilita a melhora da saúde, pode ser comprovada pelo fato de que o significado de uma palavra não é, plenamente, dela, pois a palavra, para ter significado, precisa ser dita em relação a algum objeto ou circunstância. Se alguém diz “mesa”, por exemplo, está, simplesmente,  unindo as letras “m”, “e”, “s” e “a”, gerando uma sonoridade. Uma palavra só adquire pleno significado _e esse “pleno” é diferente em circunstâncias diferentes_ se o resultado fonético tem relação a certo objeto. Exemplo: se alguém, totalmente fora de contexto, isto é, sem motivo algum, grita “massa”, o que você poderá entender? Mas se tal pessoa está construindo uma casa ou murando-a, tendo um ajudante, e grita “massa”, não apenas o ajudante, mas qualquer pessoa próxima, saberá o sentido de “massa”. Por outro lado, se o grito de “massa” for de um pzzaiolo em uma pzzaria, o significado de “massa” será modificado. Os exemplos colocados aqui servem para mostrar a importância de ampliar as vivências, as experiências, para potencializar a comunicação que, por sua vez, possibilita uma visão de mundo muito mais ampla, para que, a pessoa, saiba comunicar-se melhor com o que a ela esteja ocorrendo e, consequentemente, consiga melhores resultados e uma saúde melhor.

Não resta-me a menor dúvida de que o modo como experimentamos o bem e o mal tem a ver com a linguagem, pois o bem e o mal é, sempre, “significado”, e a medida dessa significação pode atenuar ou exacerbar a intensidade do bem e do mal que nos acontece. Mas, para um melhor entendimento do que estou dizendo, convém algumas observações: considerando que não há como fazer algo a mim mesmo fora do mundo, separado do outro, pois todo o bem e todo o mal resulta de inter-relação, devo ter a conscoência clara de que o bem real para o outro se faz na relação comigo, e que me faz bem que o outro, na relação comigo, fique bem. Aliás, a etimologia de “saúde” traz a mesma raiz de “saudação”, que significa “fazer ou desejar o bem ao outro”, o que revela o caráter interacional da “saúde”. Toda saúde resulta _seja por assim dizer_ de “relações saudáveis”. O outro, portanto, é parte integrante da minha saúde ou do meu adoecer, de maneira que preciso considerá-lo. Por isso, em Neuropsiquiatria Analítica, desenvolvi o conceito de “Saúde Relacional”. Façamos o bem ao outro sempre que estiver em nosso poder, e ficaremos ainda melhor!

Chamo atenção para o fato de que, sendo, a saúde, questão de relacionamento e significação, devemos atentar para “o que uma coisa, uma pessoa ou situação significa-nos”; trata-se de algo ou de alguém realmente importante para mim? Até que ponto isso ou essa pessoa pode impactar-me, positivamene e/ ou negaticamente? E no que refere-se à “relação”, cabe ressaltar o desenvolvimento de certos habitos, como os alimentares e de exercícios físicos, por exemplo. Como tenho me relacionado com o alimento? Como tenho me relacionado com o meu corpo, para melhor funcionalidade, interna e externa? E como tenho me relacionado com o meio ambiente de modo geral, isto é, com a Natureza, em que não apenas estou e da qual usufruo, mas também e, principalmente, da qual faço parte?

Resumindo, a boa saúde depende de como relaciono-me com as outras pessoas, com situações e, acima de tudo, comigo mesmo, pois é a partir do que penso e faço a mim mesmo que passo a pensar sobre as pessoas, a fazer a elas e a pensar e a agir sobre situações. Mas vamos ampliar um pouco mais o presente artigo, dando-lhe “contornos neurofisiológico” mais específicos, para melhor elucidação: o cérebro, embora fisicamente limitado pela caixa craniana, mediante os estímulos sonoros, visuais, táteis, gustativos, olfativos e mediante complexa interação das emoções, ativadas por incontáveis terminações nervosas em todo o corpo, se comunica com o exterior, recebendo deste, “códigos”, e em fração de um “milionésimo de segundo” decodifica-os e envia informações ao corpo inteiro ou a regiões específicas, conforme o construto linguístico-cultural do indivíduo. Todo conhecimento se faz de informações que, inicialmente, são afetações ininteligíveis _recepção e respostas sensoriais que logo passam à condição de experiências sensoriais-mnemônicas que, por sua vez, são utilizadas para a formação de conceitos. No lobo temporal medial, por exemplo, que inclui o hipocampo, as percepções sensoriais _principalmente as visuais_ são transformadas em memória, tanto consciente como celular ou corpórea, após a “decodificação” das percepções; o cérebro engendra campos sinápticos que possibilitam a estruturação dos chamados “neurônios conceitos”. Sempre que encontramos certo objeto ou pessoa, ou sempre que estejamos em situação inusitada, um padrão similar de neurônios é gerado em regiões corticais específicas, e as redes do lobo temporal medial “reconhecem” esses padrões repetitivos e a eles dedicam certos neurônios. Em outras palavras, células neurais “codificam” determinados objetos, pessoas afetivamente próximas, amigos etc. As células neuronais _”conceituais”_ não engendram sinapses para objetos, pessoas ou situações aleatórias em nosso cotidiano, e por isso é que não lembramos das pessoas, coisas e acontecimentos que circundam-nos todos os dias; são-nos indiferentes. Para a formação dos “neurônios conceitos” faz-se necessário a repetição, principalmente com impacto emocional. Convém, aqui, distinguir entre “emoções” e “sentimentos”. Emoções são impressões, afetações sensoriais ininteligíveis, enquanto sentimentos são as emoções “decodificadas”, interpretadas pelos “neurônios conceitos”, na relação com todo o corpo ou áreas específicas e o meio, incluindo todo o contexto já aprendido.  Resumindo:   o que chamamos de “mente” se desenvolveu e se desenvolve mediante experiências sensoriais-mnemônicas, desde os tempos mais primitivos, gerando o que denomino como “pensamento imagético”, até a estruturação do raciocínio complexo. Nossa vida é, inteiramente, perpassada por experiências sensoriais-mnemônicas (memórias sensoriais de tudo que vivemos, fisicamente e mentalmente). Os sonhos, inclusive, são um forte exemplo disso. Ao dormir, nossas experiências sensoriais-mnemônicas são intensificadas, pois ao baixar o nível de consciência ampliar-se o nível sensorial-mnemônico e as terminações nervosas captam com mais intensidade os estímulos externos e internos, produzindo os sonhos. O entendimento disto nos faz conhecer o leque comportamental humano, seus transtornos, suas compulsões e as mais variadas “falas psicossomáticas”. Em relação ao comportamento compulsivo, por exemplo, podemos afirmar que resulta de uma “estruturação sensorial-mnemônica” das coisas vividas e das vivenciadas mentalmente.

Um exemplo do que as experiências sensoriais-mnemônicas podem resultar de negativo: a “repetição” de certos alimentos ou bebidas, principalmente na compulsão, tem relação direta à “experiências sensoriaos-mnemônicas”, como uma espécie de “resgate” de um passado, mediante “memória gustativa” que, sendo atendida, desencadea sensações daquilo que já não se tem; é uma “vontade inconsciente” (ou ímpeto) de “preencher uma falta”. Outros tantos exemplos podem ser dados, como a compulsão nos chamados jogos de azar e em certos padrões de atitudes sexuais. Disso se conclui _com tudo o que até aqui foi dito_ que o entendimento sobre os chamados “neurônios conceitos” e de suas bases sensoriais-minmônicas são de imensa importância para uma terapêutica eficiente. Toda a realidade do ser humano é uma criação dele mesmo, mediante a linguagem que se desenvolve a partir de experiências sensoriais-mnemônicas, e essa observação da NPA torna-se o mais podereso norte ao futuro das psicoterapias e demais áreas relacionadas à saúde humana. Meu maior desejo é que minhas palavras não caiam no vazio, mas que, caindo em terreno fértil _coisa raríssima em nossos dias, principalmente entre terapêutas_ deêm muitos frutos, independentemente de se meu nome receberá ou não a devida honra ao longo da minha existência e depois. A Neuropsiquiatria Analítica é, acima de qualquer coisa, a minha mais importante contribuição oferecida à humanidade. Que o presente fragmento da Neuropsiquiatria Analítica sirva de farol a iluminar o caminho de profissionais que não temem “pensar fora da caixa”, se é que, além de mim, tais profissionais existem…

Autor:

Cesar Tólmi – Filósofo, psicanalista, pós-graduando em Neurociência Clínica, jornalista, artista plástico autodidata, escritor e idealizador da Neuropsiquiatria Analítica integrada aos campos clínico, forense, jurídico e social.

E-mail: cesartolmi.contato@gmail.com

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