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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

A trégua de natal de 1914

(Uma bela história que meu professor nunca me contou)

A “Trégua de Natal” (Christmas Truce, em inglês; Weihnachtsfrieden, em alemão) foi o termo usado para descrever uma trégua informal ocorrida na frente ocidental no Natal de 1914, durante a Primeira Guerra Mundial. Embora não houvesse nenhuma trégua oficial, cerca de 100 mil soldados britânicos e alemães estiveram envolvidos num cessar-fogo não oficial ao longo de toda a frente ocidental, no primeiro ano de conflito.

A trégua foi observada pelos britânicos e alemães na parte mais ao sul do saliente de Ypres, na Bélgica, na véspera de Natal, 24 de dezembro de 1914. Durante a semana que antecedeu o Natal, soldados alemães e britânicos trocaram saudações festivas e canções entre suas trincheiras. Na véspera de Natal e no Dia de Natal muitos soldados de ambos os lados se aventuraram na “terra de ninguém”, onde se encontraram, trocaram alimentos e presentes, e entoaram cânticos natalinos ao longo de diversos encontros. A trégua também permitiu que os soldados mortos recentemente pudessem ser trazidos de volta para suas linhas para poderem ser enterrados. Foram realizados vários funerais em conjunto.

A trégua é vista como um momento simbólico de paz e de humanidade em meio a um dos eventos mais violentos da história moderna, mas não foi universal: em algumas frentes de combate a luta continuou durante todo o dia, enquanto em outras foi feito apenas o trabalho de recolher os corpos dos mortos.

Embora existam muitas histórias acerca de como o Natal não oficial foi iniciado em vários setores, para a maior parte ele foi iniciado pelas tropas alemãs estacionadas defronte às forças britânicas onde uma distância relativamente curta separava as trincheiras ao longo da “terra de ninguém”.

Muitos soldados alemães tinham o costume, na véspera do Natal, de montar árvores de Natal, adornadas com velas acesas – com a exceção que, desta vez, foram posicionadas ao longo das trincheiras do front oeste. Inicialmente surpresos e desconfiados, os observadores britânicos reportaram a existência das árvores de Natal para os oficiais superiores. A ordem recebida foi que eles não deveriam atirar, mas, em vez disso, observar cuidadosamente as ações dos alemães. Em seguida, foram ouvidos cânticos de Natal, cantados em alemão. Os ingleses responderam, em alguns lugares, com seus próprios cânticos. Aqueles soldados alemães que falavam inglês então gritaram votos de Feliz Natal para os “Tommies”; saudações similares foram retribuídas da mesma maneira para os “Fritz”. Como escreveu o fuzileiro Graham Williams, do 5º London Rifle Brigade: “Começamos a cantar O Come, All Ye Faithful e imediatamente os alemães se uniram cantando o mesmo hino em suas palavras latinas, Adeste Fideles. Que coisa extraordinária – duas nações inimigas entoando o mesmo cântico no meio da guerra”.

Em algumas áreas, soldados alemães convidaram os “Tommies” para avançar pela “terra de ninguém” e visitar os oponentes alemães que eles estavam tão absortos em matar poucas horas antes. O capitão alemão Josef Sewald, do 17º regimento de infantaria da Bavária escreveu: “Gritei para os nossos inimigos que não queríamos atirar e que faríamos uma trégua de Natal. Disse que eu viria do meu lado e que poderíamos conversar entre nós. A princípio, houve silêncio, voltei a gritar e um inglês gritou, “Parem os tiros!” Aí um deles saiu das trincheiras e eu fiz o mesmo, e nos aproximamos e trocamos um aperto de mãos – um tanto cautelosos!” Edward Hulse, um tenente do 1º Scots Guards, escreveu no diário de guerra do seu batalhão: “Nós iniciamos conversações com os alemães, que estavam ansiosos para conseguir um armistício durante o Natal. Um batedor chamado F. Murker foi ao encontro de uma patrulha alemã e recebeu uma garrafa de uísque e alguns cigarros e uma mensagem foi enviada por ele, dizendo que se nós não atirássemos neles, eles não atirariam em nós”.

Na manhã de Natal, um culto bilíngue foi realizado por um ministro escocês e um seminarista alemão, “um espetáculo extraordinário”, deslumbrou-se o tenente Arthur Pelham Burn, do 6º Gordon Highlanders. Enquanto os Salmos eram cantados, “os alemães [estavam] alinhados de um lado, os britânicos de outro, os oficiais à frente, todos de cabeça descoberta.”

Consequentemente, a artilharia nesta região permaneceu em silêncio naquela noite.

Histórias começaram a se espalhar sobre visitas trocadas entre as forças britânicas e os inimigos alemães. Tais visitas não estavam restritas aos soldados somente: em algumas ocasiões, o contato inicial foi feito entre oficiais, que definiram em conjunto os termos da trégua, acrescentando somente o quanto seus homens poderiam avançar em direção às linhas inimigas.

Estes termos permitiam o enterro das tropas de cada lado que jaziam ao longo da “terra de ninguém”, alguns mortos há apenas uns dias, enquanto outros haviam esperado meses pela dignidade de um funeral – todos, porém, tiveram que ser deixados onde haviam caído, pois metralhadoras cobriam o local onde eles jaziam na desolação entre as trincheiras opostas.

Naturalmente, homens das equipes encarregadas dos funerais entraram em contato com os membros das equipes similares do inimigo quando, então, conversas foram entabuladas e cigarros trocados.

O mais notável de tudo foi, talvez, a história da partida de futebol entre os ingleses do 2º Argyll and Sutherland Highlanders e as tropas alemãs do 133º regimento de infantaria da Saxônia – vencida por 3×2 pelos alemães, que cantavam “Deus salve o rei” em homenagem a Jorge V do Reino Unido. Outro jogo, entre o 2º Royal Welsh Fusiliers e o 134º regimento de infantaria da Saxônia, também terminou com vitória alemã por 2×1.

Em muitos setores a trégua durou até a meia-noite de Natal; enquanto em outras áreas durou até o primeiro dia do ano seguinte.

Nos primeiros meses de guerra de trincheiras, as tréguas não eram restritas apenas ao período de Natal, e unidades de infantaria em estreita proximidade com outras evitavam um comportamento abertamente agressivo, e muitas vezes se engajavam em pequenas confraternizações, promovendo conversas ou troca de cigarros. Em alguns setores havia cessar-fogo ocasional, para que os soldados pudessem ir entre as linhas de combate para resgatar os companheiros feridos ou mortos, enquanto em outros vigorava um acordo tácito para não atirar enquanto os homens descansavam, se exercitavam, ou trabalhavam à vista do inimigo. As tréguas de Natal foram particularmente notáveis devido ao número de homens envolvidos e ao nível de participação – milhares de homens se reuniam abertamente à luz do dia para celebrar o nascimento do Salvador, Jesus Cristo.

Nas cartas para casa, os soldados na linha de frente foram praticamente unânimes em expressar seu espanto com os eventos do Natal de 1914. Um alemão escreveu: “Aquele foi um dia de paz na guerra; é uma pena que não tenha sido a paz definitiva”.

O cabo John Ferguson, do 2º Seaforth Highlanders, contou como a trégua foi conduzida no seu setor: “Nós apertamos as mãos, desejando Feliz Natal e logo estávamos conversando como se nos conhecêssemos há vários anos. Nós estávamos em frente às suas cercas de arame e rodeados de alemães – Fritz e eu no centro, conversando, e ele, ocasionalmente traduzindo para seus amigos o que eu estava dizendo. Nós permanecemos dentro do círculo como oradores de rua. Logo, a maioria da nossa companhia (Companhia ‘A’), ouvindo que eu e alguns outros havíamos ido, nos seguiu… Que visão – pequenos grupos de alemães e ingleses se estendendo por quase toda a extensão de nossa frente! Tarde da noite nós podíamos ouvir risadas e ver fósforos acesos, um alemão acendendo um cigarro para um escocês e vice-versa, trocando cigarros e souvenires. Quando eles não podiam falar a língua, eles tentavam se fazer entender através de gestos e todos pareciam se entender muito bem. Nós estávamos rindo e conversando com homens que só umas poucas horas antes estávamos tentando matar!

O capitão Bruce Bairnsfather, do 1º Warwickshires, resumiu os sentimentos de muitas das tropas britânicas quando ele escreveu: “Todos estavam curiosos: ali estavam aqueles malditos comedores-de-salsicha, que tinham começado aquela infernal guerra europeus e, ao fazer isso, nos enfiaram no mesmo lamaçal junto com eles… Não havia um átomo de ódio em qualquer dos lados aquele dia e ainda, no nosso lado, nem por um momento havia a vontade de guerrear e a vontade de deixá-los relaxados. […] Eu não perderia aquele único e estranho dia de Natal por nada deste mundo… encontrei um oficial alemão, um tenente penso eu, e sendo um colecionador, disse a ele que havia gostado de alguns de seus botões. Eu trouxe meu cortador de arame, retirei um par de botões e coloquei-os no bolso. Então eu lhe dei dois dos meus em troca… depois reparei num dos meus artilheiros, que era cabeleireiro amador na vida civil, a cortar o cabelo bastante longo de um Fritz dócil, que estava pacientemente ajoelhado no chão, enquanto a máquina de corte deslizava em volta de seu pescoço.”

A Igreja Católica, através do Papa Bento XV, tinha solicitado uma interrupção temporária das hostilidades para a celebração do Natal, pedindo “que as armas possam cair em silêncio, ao menos na noite em que os anjos cantam”. Embora o governo alemão tenha indicado sua concordância, os aliados rapidamente discordaram: a guerra tinha que continuar, mesmo durante o Natal.

Os governos aliados e o alto-comando militar reagiram com indignação à trégua de Natal. O comandante-em-chefe britânico, o general Sir John French, possivelmente tinha previsto a suspensão das hostilidades no Natal quando emitiu uma ordem antecipada alertando suas forças para um provável aumento da atividade alemã durante o Natal: ele, portanto, instruiu seus homens para redobrar o estado de alerta durante esta época. Após a trégua ele escreveu severamente: “Eu emiti ordens imediatas para prevenir qualquer recorrência deste tipo de conduta e convoquei os comandantes locais para prestarem contas, o que resultou em punições severas”. O general Sir Horace Smith-Dorrien, comandante do II Corpo britânico, revoltou-se ao saber o que estava acontecendo e emitiu ordens estritas proibindo a comunicação amigável com as tropas adversárias alemãs: “O Comandante do Corpo, portanto, ordena aos Comandantes de Divisão para incutirem em todos os seus comandantes subordinados a absoluta necessidade de encorajarem o espírito ofensivo das tropas, enquanto estiverem na defensiva, por todos os meios à sua disposição. Relações amistosas com o inimigo, armistícios não oficiais (i.e, ‘nós não atiramos se vocês não atirarem’, etc.) e a troca de tabaco e outros confortos, não importa os quão tentadores e ocasionalmente agradáveis possam ser, estão absolutamente proibidos”.

Adolf Hitler, cabo do 16º regimento de infantaria da reserva da Bavária, estava entre os oponentes da trégua, tendo desabafado: “Essas coisas não deviam acontecer em tempo de guerra. Os alemães perderam todo o senso de honra?”

Investigações foram conduzidas para determinar se a trégua não oficial foi de alguma maneira organizada de antemão; o resultado da apuração foi negativo. A trégua foi um evento genuinamente espontâneo, que ocorreu em alguns setores, mas não em outros.

Embora a história dos conflitos inclua numerosos exemplos de gestos generosos entre inimigos, a trégua de Natal no front oeste foi talvez o mais espetacular e, certamente, o mais famoso de seu tipo. “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem” (Lc 2.14) – por, pelo menos, um breve período de tempo.

No entanto, precauções especiais foram tomadas pelos alto-comandos dos exércitos envolvidos durante o Natal dos anos seguintes, aumentando os bombardeios de artilharia para que não mais ocorressem tréguas. E as tropas ao longo de vários setores da frente foram também trocadas para impedir que se tornassem excessivamente familiares ao inimigo. Os combates continuaram até 1º de novembro de 1918. Cerca de 21 milhões de pessoas morreram, como resultado da Primeira Guerra Mundial.

Autor:

Antônio Henriques Dias Cordeiro

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