Ontem discuti novamente com meu pai por um tema que discutimos inúmeras outras vezes e sua incapacidade de assimilação do meu ponto de vista se tornou ao meu ver tão irritante que chega a ser uma pena, porque houve um dia em que eu o admirasse muito, hoje já não tanto. Obviamente ainda o amo, afinal, apesar de tudo foi um pai presente e sempre disposto a me ajudar, o que no Brasil, vocês sabem, é um privilégio enorme. No entanto, sendo eu uma mulher lésbica, conseguir argumentar com meu pai sobre as dificuldades de aceitação das pessoas que fazem parte da comunidade lgbtqia+ é desgastante e frustrante pois apenas parece não funcionar. A briga de ontem se deu pelo seguinte: ele e seu irmão tem o hábito, desde que eu me lembre de se chamarem, um ao outro de “bibinha, viadinho, bixinha ou baitola” entre outros. Eu disse a ele, como tantas outras vezes, que essa forma de tratamento me incomodava, afinal apesar de estes dois homens heterossexuais se chamarem assim pois consideram “carinhoso”, é uma forma pejorativa de lidar com uma sexualidade que não é deles, é minha, e de um dos filhos desse meu tio também. Nós crescemos ouvindo essa chacota deles, e como todo mundo que sai do armário sabe, até você entender que são as pequenas coisas que perpetuam os preconceitos diários, não tínhamos como reagir. E meu pai acha que tem o “direito” de tratar meu tio como ele bem entende e que eu não tenho o “direito” de me sentir incomodada com essa forma de tratamento pois ele nunca me “tratou mal”. Vamos a um episódio bem recente… Minha companheira precisava ir ao oftalmologista. Meu pai tem um amigo oftalmo e conseguiu um encaixe para ela, ótimo. Chegando no médico o doutor pergunta :- Você que é a sobrinha do X? Ela responde: – Não, sou a nora! Ao que o médico pergunta: – Mas quantos filhos ele tem? E minha companheira prontamente responde: – Filho tem um só, mas eu casei foi com a filha!
Agradeço muito por ter ao meu lado uma mulher tão incrível como ela, que não abaixa a cabeça para o preconceito alheio. Porque nós somos assumidas, pai. Temos orgulho de quem somos, no caso, lésbicas. E se você não entende ainda, a mesma coisa que te faz pensar que você tem o “direito” de brincar com a sexualidade alheia, é a coisa que te faz pensar que você tem o “direito” de nos causar tamanho constrangimento inventando qualquer coisa para não dizer ao seu amigo que a pessoa que precisava de uma consulta é a “mulher da sua filha”. Te pergunto, pois eu já conheço a resposta: Se fosse a companheira do meu irmão, você teria dito o quê para o seu amigo médico? Que era sua sobrinha? Já pensou? Ou você teria dito absolutamente sem hesitar, com todas as letras que era a “mulher de seu filho”? Eu sinto muito por passar por isso, mas sinto mais ainda por ter feito o amor da minha vida passar. Quando eu disse ontem que você não ia entender nunca, é porque infelizmente eu já não acho que vá mesmo. Mas talvez escrevendo eu consiga fazer com que outros pais heterossexuais por aí possam desenvolver um pouco mais de sensibilidade e poupem suas crias e seus amores de passarem pelo mesmo constrangimento que nós. Que assim seja!
Autora:
Mariana Rodrigues