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quinta-feira, 19 de maio de 2022

Duas de mim: uma coluna particular

A vivência da transgeneridade é uma experiência singular em diversos aspectos. Creio que o mais evidente -e mais primário- seja a visão bipartida que as pessoas tenham acerca de nós outras. Serei mais clara: todos os sujeitos tem nomes. Nem todos podem escolhê-los. A maioria das crianças, na verdade, já nasce sob o signo de um nome que lhe deram antes mesmo de sua primeira palavra. Esse nome carrega a epítome do desejo de seus pais para quem querem que elx se torne no futuro. Todavia, não são todes -eu a exemplo- que se tornarão o Gabriel ou a Maria que seus pais desejaram. Aqui vem o primeiro choque, pois o confronto entre a filha real e o filho idealizado surge e se apresenta violentamente.

Dei-lhes o exemplo do nome porque ele carrega a noção absoluta da individualidade. Então, se surgem duas de mim: Ariel e Gabriel, como proceder além do monte e das feras? Eis uma pergunta que tenho me feito e com a qual me esbarro em momentos ignorados. Ainda há aqueles que me chamam pelo nome que me designaram, juntamente (para minha alegria pessoal) daqueles que me chamam pelo meu nome real: Ariel.

Não há conflito de identidade para mim. Tudo o que há é um choque de ideias. Nunca fui Gabriel. Nunca senti-me o garoto que desejaram que eu fosse. Sempre guardei com zelo carinhoso Ariel, um ser além dos gêneros; e um nome que é feminino e masculino num só: como eu própria me vejo.

Contudo, embora eu não me veja assim, ainda custa-me um tanto desatar das línguas o nó silábico do nome Gabriel, que nada tem de meu, mas o carrego quase como um caderno velho que se leva na mochila, malgrado saibamos que nunca o vamos utilizar.

Não lhes conto isso para alimentar um desejo narcísico de ser vista, mas porquê acredito que tal vivência seja quase como um universal entre as pessoas como eu -mesmo que ainda não tenham descoberto seu nome, mas havendo encontrado seu Eu recôndito-.

Em vão, suspiro perante as palavras pensando, numa dócil certeza, que elas não expressam aquilo que desejo. Elas criam o que bem entendem na verdade e, por isso mesmo, não escrevo pensando em quem lerá o que escrevi. -Se é que alguém lerá.- Parafraseando Clarice Lispector, escrevo tão só para florescer e porque o próprio silêncio é impossível. Digo-o assim, pois tanto nunca ficamos a sós conosco mesmos quanto porque o grito daquilo que não som ou imagem é insuportavelmente alto e agudo.

Não sei o que isso tem a ver com nomes, mas tem a ver comigo, pois, embora a palavra seja só o que me distingue linguisticamente de outra que não eu, as palavras criam para mim e de mim o mundo em que habito.

Na verdade, esta própria coluna poderia ter também muitos nomes. Poderia ser: Uma Descoberta ou Palavras ou Uma Perda ou O Ser e o Nada. Não tem ela, porém, outro nome que não o que lhe designei. Sorte a nossa que, sendo pessoas, e não colunas, ainda podemos nos (re)nomear ao correr da vontade.

Autoria:

Ariel Von Ocker é escritora, psicanalista, poliglota e acadêmica de Letras e História. Também já trabalhou no teatro como dramaturga e atriz. Com catorze anos escreveu seu primeiro romance e por anos seguiu escrevendo sem publicar, até que em 2021 se torna colunista no maior blog sobre psicanálise em língua portuguesa com o texto de estreia Representações Sobre o Feminino: Um Olhar Histórico. Atualmente se dedica à formação acadêmica e à divulgação da arte e do conhecimento através da iniciativa Projeto Simbiose, no qual atua no núcleo de direção em parceria com Michelle Diehl e Cristina Soares e da Revista Ikebana, onde atua como editora-chefe.
Também é autora do livro Canções da Tarde, disponível para compra através do link: https://www.amazon.com.br/dp/B09NTYWQ6Z.

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