9.6 C
São Paulo
quinta-feira, 19 de maio de 2022

Condenado

No decorrer do século XXI, o futebol brasileiro produziu um reduzido número de grandes jogadores, os craques, que passamos a chamar de ídolos. Puxando pela memória, destacaria Kaká e Neymar. Lembro que Ronaldo e Ronaldinho, que facilmente fariam parte da lista, já estavam em atividade no decorrer dos anos 90 e que as promessas, como Vinícius Júnior, ainda precisam desabrochar. Ao lado de Kaká e Neymar há ainda mais um, que propositalmente deixei para o final, Robinho.  

Retorno para dezembro de 2002, final do Campeonato Brasileiro entre Santos e Corinthians. Robinho infernizou a defesa adversária. A atuação de gala, do jovem e franzino garoto de 18 anos, pode ser sintetizada nas inesquecíveis pedaladas que ele deu em seu marcador, o lateral-direito, Rogério. Recuando e desesperado com a habilidade do craque, ao tentar dar o bote e tomar a bola, o atleta do Corinthians derrubou Robinho dentro da área: pênalti. Mesmo jovem, o atleta chamou a responsabilidade da cobrança e abriu o placar que, ao final dos 90 minutos, daria a vitória e o título brasileiro para os santistas. Além disso, era retomado o conceito dos “meninos da Vila”, que teve sua primeira versão na geração que derrotou o São Paulo e conquistou o título estadual de 1978, o primeiro troféu conquistado desde a aposentadoria de Pelé.

A jogada de Robinho foi tão inusitada e espetacular que, 4 anos depois, em setembro de 2006, defendia o mestrado em História na Universidade de Brasília. O tema versava como três importantes cronistas esportivos, Nelson Rodrigues, João Saldanha e Armando Nogueira, ajudaram na construção da ideia do Brasil como país do futebol. A narrativa por eles construída passava pela contraposição das ideias do futebol-arte, representado pelo Brasil, e do futebol-força, que caracterizaria o estilo europeu. Sintetizando o trabalho, um rápido filme com as citadas pedaladas de Robinho fechou a apresentação para a banca.

O jogador santista, de sorriso fácil e simpático, além de bom de bola, era carismático. Brilhou no Santos e também na Seleção Brasileira, mas jamais conseguiu confirmar todo o seu potencial nos campos europeus. E foi por lá, que se meteu em grandes e imperdoáveis confusões.

A condenação por estupro cometida por Robinho não foi o primeiro caso de violência sexual que o atleta se viu envolvido no Velho Continente. Em 2009, na Inglaterra, defendendo as cores do Manchester City, os jornais ingleses “The Sun” e “The Times” noticiaram que o jogador havia sido preso após ter estuprado uma jovem de 18 anos em uma boate chamada Space, em Leeds. Segundo os veículos da imprensa, o jogador brasileiro foi solto logo após pagar a fiança. Robinho, imediatamente, negou que tenha sido preso e de ter pago a fiança e que foi até a delegacia apenas para prestar esclarecimentos.

Em junho de 2009, após as investigações, Robinho ficou livre da acusação de estupro. A Polícia de West Yorkshire enviou o caso à Procuradoria de Justiça, que decidiu não dar continuidade ao processo. O impacto no noticiário brasileiro foi pequeno. O relato feito aqui não é no sentido de desacreditar a versão de Robinho ou a investigação inglesa após sua condenação na Itália pelo mesmo crime e em situação parecida. Mas, a experiência deveria ter servido de alerta para o atleta. Como figura pública, como ídolo, ele precisava cuidar de sua imagem e, acima de tudo, ter a consciência de que ele não estava acima das leis.

Decorridos apenas 4 anos da denúncia na Inglaterra, Robinho se envolveu em nova acusação de estupro. Desta vez, em Milão, na boate Sio Cafe, durante a madrugada de 22 de janeiro de 2013, juntamente com outros companheiros. A vítima, uma mulher albanesa, comemorava seu aniversário de 23 anos no local. O processo, que iniciou em 2016, percorreu as três instâncias do judiciário italiano até o dia 19 de janeiro deste ano e o jogador brasileiro foi condenado em todas elas.

Dois meses antes do julgamento em segunda instância, ocorrido em dezembro de 2020, que confirmou a decisão proferida na instância inferior, o atleta deu uma entrevista pra uma grande emissora e soltou pérolas machistas e os contumazes ressentimentos e desculpas: a de que estava sendo perseguido pela imprensa, desancou o movimento feminista e ainda exigia que, sendo absolvido, todos aqueles que o haviam atacado deveriam lhe pedir desculpas. No decorrer da entrevista, o atleta afirmou que o “X” da questão é saber qual seria o crime que ele cometeu.

A resposta definitiva foi proferida no dia 19 de janeiro. Mas, antes de abordá-la, é interessante tratar das interceptações telefônicas, assim como das gravações realizadas por escutas instaladas no carro de Robinho pela polícia italiana, todas legalmente realizadas. Elas nos deixam completamente atônitos e enojados. “Estou rindo porque não estou nem aí, a mulher estava completamente bêbada, não sabe nem o que aconteceu (…)”. “Lembro que os caras que pegaram ela foram (…). Eram cinco em cima dela”. Em outra passagem, ele afirma para o amigo que só havia feito sexo oral e que isso não significava transar, ou seja, não seria sexo.

Robinho é, por um lado, o retrato do mundo do futebol e da própria sociedade brasileira. Retrógrada, conservadora, homofóbica, misógina e machista. Para quem dúvida da afirmação acima, lembro que nossa principal autoridade, afirmou, poucos anos atrás, que só não estupraria uma determinada adversária política porque ela não mereceria, por ser muito feia e não fazer o seu tipo. Independente da coloração política, o comentário é lastimável e deveria ter sido rejeitado de forma veemente por toda a sociedade. Não foi isto que aconteceu.

Por outro lado, acredito que também paire em sua alma brasileira a confiança de que basta ser rico, famoso, um ídolo no esporte mais popular do planeta, para que ele esteja acima das leis. Cabe aos clubes formadores dos jovens de conscientizá-los que a fama e o dinheiro podem facilitar suas vidas, mas que continuam sendo cidadãos e para que a cidadania de fato exista e tenha sentido é preciso que a sociedade se paute na igualdade e na isonomia. O conceito pode ser sintetizado em um simples ditado popular: o “pau que dá em Chico dá em Francisco”.

Robinho, o crime que você cometeu e foi condenado na Justiça italiana, em todas as suas instâncias, foi de estupro e apesar da admiração que tive por seu futebol, o mesmo não posso dizer de seu caráter. Você é o antiexemplo, para usar uma palavra educada. Minha empatia se dirige, inicialmente, para a vítima, assim como para as muitas mulheres e também homens que se posicionaram no caso e sofreram ameaças, ataques e achincalhes provenientes dos setores retrógrados de nossa sociedade.

Autor:

Luiz Henrique Borges

Deixe uma resposta

Leia mais