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terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Em 2022, eleições e o 2º centenário

“O Brasil não tem jeito”. Tenho ouvido cada vez com maior frequência essa desanimada e desanimadora afirmação, emitida por gente que já viveu fases melhores e por jovens a quem parece que o futuro não lhes pertence.

Ao completar o primeiro centenário da independência – o país esteve 67 anos sob monarquia constitucional e 33 em regime republicano –, o país via-se então aos 100 anos fora do jugo da metrópole portuguesa. Pelos registros históricos e pelos depoimentos de meu pai, tios e avós fiquei sabendo da grandiosidade daquela efeméride. Revoltas e guerras, crises políticas, mudança de regime nada tirou a confiança no porvir. Penso que o epíteto “Brasil, país do futuro” tenha sido cunhado, como título do livro de autoria do escritor austríaco, de origem judaica, Stefan Zweig, somente em 1942.

Em 7 de setembro próximo, se completará o segundo século do Brasil independente. A proximidade das eleições talvez não propicie o melhor clima para os festejos. A clivagem a que a sociedade brasileira tem sido submetida nas últimas décadas é que não tem permitido que vejamos com clareza por onde superar os óbices normais ao desenvolvimento de qualquer comunidade humana. Um desserviço que políticos inconsequentes têm prestado à Nação.

De maneira jocosa, responderia, se me fosse perguntado, quais os desastres estratégicos destes últimos 100 anos, que nos levaram à situação em que estamos hoje:

Para ser simplório e começar uma discussão, eu diria: “Na escola, o melhor é a merenda e, em segundo lugar, que preferimos ônibus ao trem. Claro, que essas decisões não foram individuais, mas políticas.

A implantação das primeiras ferrovias deveu-se a Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, outros brasileiros lhe seguiram na tentativa do óbvio, prover o país de meio de transporte seguro e rápido que permitisse a ligação econômica do interior aos grandes centros e aos portos. Empresas estrangeiras (inglesas) instalaram-se para explorar o aparentemente frutuoso negócio. A visão estatal distorcida acabou por inviabilizá-lo para a iniciativa privada. Ao assumi-lo, o governo suprimiu o que entendeu serem ramais deficitários, levou à bancarrota dezenas, talvez centenas, de localidades no interior e pôs a nocaute o modal ferroviário, até hoje estendido na lona da incompetência.

Deixamos os trens e passamos a circular por automóveis, ônibus e caminhões. A opção rodoviária correta para o curto prazo, dos anos JK – pressa, menores investimentos estatais – gerou empregos, impostos e industrialização, mas, ao não ser corrigida, nos deixou, até hoje, com as calças na mão, na beira da estrada, pagando altos pedágios e altas tarifas por tonelada transportada.

Durante largo período, os governos entenderam a importância da educação primária (fundamental) pública, responsabilidade dos municípios que cumpriam a obrigação com denodo, valorizando as professoras, formadas nos cursos normais e com prestígio social nas comunidades, ainda que com baixa remuneração. Os Grupos Escolares cumpriam a missão nesse primeiro estágio. Professoras leigas tentavam suprir deficiências no interior. Era um modelo a ser melhorado. Sucessivas reformas do ensino acabaram por desmantelar o pouco que funcionava bem sem nada colocar no lugar. Hoje, o ensino público inicial é medíocre e a primeira providência dos pais é levar os filhos para escolas particulares.

A desvalorização dos profissionais dedicados ao ensino, em todos os níveis, tem sido a tônica, desde o status social, ao salário minguado. Ensino e educação são vistos como despesas e como tal estão na mira para sofrerem cortes. Se fossem entendidos como investimentos de médio e longo prazo – de 20 anos para mais – a visão dos planejadores seria a de buscar maiores retornos. Mas para isso teríamos que ser governados por estadistas!

Como a se penitenciar desse descalabro, alguns governos constroem prédios, inauguram universidades e escolas. Mas o conhecimento está na cabeça das pessoas. Resultados virão dando-lhes oportunidades, valorizando-as material e socialmente. Somente cabeças bem-preparadas formarão cabeças bem-preparadas. Daí começaremos bem o terceiro século da independência. Tão simples como isso. Quem bancará?

Tema, necessariamente, em discussão será a condução da política externa. Ter posicionamento claro em relação às forças que jogam as grandes partidas do poder mundial, e mesmo na América Latina, é primordial. Precisamos saber o que cada candidato tem na cabeça. Meio ambiente sempre em tela.

A esquerda dará continuidade ao que se viu no Fórum de São Paulo, que em linhas gerais procura fortalecer e implantar governos socialistas na América Latina, o que explica os investimentos, a fundo perdido, que o Brasil fez em países de governo de esquerda, como modo de consolidá-los e de marcar a liderança brasileira, visando a criação de uma União de Repúblicas Socialistas. É verdade que historicamente a postura entendida como expansionista do Brasil gera temor nos vizinhos, não sem motivos.

Candidatos mais à direita deverão explicar seus possíveis posicionamentos frente aos contenciosos comerciais com a União Europeia, com o comércio com a China e com os Estados Unidos nas hipóteses da continuidade do segundo mandato de Biden ou do retorno dos Republicanos à Casa Branca.

Cabe explicar, que na atualidade, o expansionismo é muito mais ideológico e comercial e no mundo atual o avanço sobre territórios só se vê em situações esporádicas, como no Oriente Médio e na relação entre a Rússia e os antigos parceiros da URSS.

Ao eleitor consciente, que é também formador de opinião, cabe ler as entrelinhas para ver em que mato está entrando.

Crônicas da Madrugada.

Autor:

Danilo Sili Borges, membro da Academia Rotária de Letras do DF. ABROL BRASÍLIA. Brasília – dez. 2021

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