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domingo, 26 de junho de 2022

Samba da Encruzilhada

Após uma vida inteira engolindo sapos, Seu Tomás alcançou seu limite.

Basta!

Não iria seguir sua vida dessa forma, não mais. 

Todo mês gastava mais do que recebia em seu empreguinho meia boca.

Era cobrado por todos, desde o chefe à sua esposa, por mais.

Mais esforço, mais dinheiro, mais felicidade.

E ele rezava todos os dias para conseguir tudo isso.

Toda noite no pé da cama e todo Domingo na Igreja, para agradecer pela semana e rezar por uma melhor ainda.

Mas, recentemente, já não tinha mais tanta força pra isso.

“Agradecer pelo o que?”, ele se questionava.

“Para quem?”

Isso se houvesse alguém.

Cercado de dúvidas, aproveitou os quinze dias que tinha acumulado de férias ao longo dos anos e foi visitar sua terra natal no interior paulista.

Em uma roda de bar com seus velhos amigos, Seu Tomás contou seu triste conto.

“Não sei por que gastei tanto tempo sendo honesto e trabalhando, só para seguir pobre e ferrado. Nem a Vera me aguenta mais.”, relatou em meio à algumas doses de Maria Mole. 

Um de seus amigos, o Véio Lira, o chamou de canto quando o pessoal já estava mais caído e lhe repassou um segredo.

“Sabe o Sérgio, da lojinha de presentes no centro?”

“Sei. Tá grande a loja dele, né? Quase o quarteirão inteiro.” respondeu Tomás.

“E… tá sentado na grana esse aí. Pessoal vem de todo lugar, de Ribeirão à Bauru pra comprar da loja dele.”

Seu Tomás não consegue acreditar.

“Rapaz… mas não era tudo porcaria as coisas da loja dele?”

“Era sim. Mas ele me contou o segredo”, diz Lira, com um sorriso no rosto.

Ele confirma que ninguém está escutando os dois, e então cochicha algo no ouvido de Tomás, que o olha incrédulo.

“Você tem certeza disso?”, pergunta Tomás.

“Absoluta. Na encruzilhada, lá pro caminho de Ibitinga. Eu só não tive coragem de ir testar. Mas, pelo tanto que a loja cresceu, deve ser verdade sim…”

E assim, quando a noite chegou, Seu Tomás visitou a encruzilhada.

Como instruído, levou velas pretas e uma galinha ainda viva.

Seu Tomás matou a galinha, fez um círculo com seu sangue, pôs as velas no meio e esperou.

Nem precisou esperar muito até ele chegar.

“O que desejas, Tomás?”, pergunta a enorme figura na escuridão. “Queres riquezas, que seu nome seja falado e ouvido ao redor desse mundo? Queres o amor de sua esposa de volta, ou de todas as mulheres com quem já sonhou? Diga, e terás. Por um pequeno preço, mas terás…”

Seu Tomás não responde nada.

Ele olha o Diabo, de cima a baixo.

Quando satisfeito, se vira para ir embora.

O Diabo, confuso e com problemas de autoestima após ser ignorado, o chama de volta.

“Onde vai? Falei algo errado?”

Seu Tomás o olha novamente e fala com sinceridade.

“Eu rezo todo dia, e todo domingo vou pra igreja. Faço isso desde que me conheço por gente. Ninguém nunca respondeu. Eu só queria saber se estava falando com alguém, durante esse tempo todo. Se valia a pena seguir em frente. E, se você está aqui, com certeza Ele está também. Obrigado!”

Seu Tomás então partiu de volta para sua vida medíocre, mas que se tornava bela porque agora ele sabia. 

Já o Diabo ficou na encruzilhada, sozinho e cheio de inseguranças.

Nenhum dos dois jamais esqueceu um ao outro.

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