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sábado, 22 de janeiro de 2022

Questões ambientais no Brasil

Em um pronunciamento recente, o presidente Bolsonaro fez a seguinte declaração: “o interesse na Amazônia não é no índio, nem na porra da árvore, é no minério”. A declaração ocorreu em frente ao Palácio do Planalto, a garimpeiros da região de Serra Pelada, no estado do Pará.

A frase é uma crítica ao interesse de outros países à floresta Amazônica e a visão estratégica de exploração dos recursos minerais dessa região. Essa ideia expressada por Bolsonaro não é novidade! Muitos dos problemas atuais na questão ambiental brasileira, passa por uma visão de que o meio ambiente atrapalha o desenvolvimento de uma região, de um país ou do mundo.

O garimpeiro quer explorar as jazidas, que se encontra em regiões que deveriam ser protegidas. Essa comunidade não tem interesse na preservação do meio ambiente! Seu interesse é meramente econômico! São grupos interessados nos minérios das muitas regiões brasileiras.

Já tivemos as explorações na Serra Pelada. Anteriormente, outras tantas explorações em Minas Gerais. Ao estudarmos a história do Brasil, temos conhecimento dos bandeirantes. Os bandeirantes foram organizados, inicialmente, para capturar índios, mas graças a essas expedições descobriram regiões ricas em ouro, (final do século XVII), nas proximidades do rio das Velhas e Sabará. A partir de então o “bandeirantismo” inaugurou uma nova etapa nas relações econômicas na colônia.

Além dos garimpeiros, temos os agricultores, também interessados no uso e ocupação do solo. Assim, surgiu outra versão de exploração dos recursos naturais, sem a preocupação com as árvores e o solo brasileiro.

Infelizmente, em pleno século XXI, muitos dos nossos agricultores querem retirar as florestas e plantar soja, milhos ou transformá-las em pastagem para o gado. Essa é a visão que o agricultor tem de desenvolvimento do Brasil. Essa é a visão que a maioria os gestores brasileiros tem de desenvolvimento para o Brasil. Desenvolvimento baseado no aniquilamento das florestas. Essa porra dessa árvore… (palavras de um gestor brasileiro!)  

Nossos agricultores, historicamente, vêm ocupando as terras, desde o sul do Brasil, explorando-as e, logo a seguir, abandonando-as para ocupar outros rincões, devastando florestas e abrindo novos sítios para produção de grãos e pastagens. Isso pode ser observado no pantanal, no cerrado, em todos os biomas brasileiro.

            A ideia de que a árvore atrapalha ainda está presente em muitos meios da política e da sociedade brasileira. Por outro lado, já se sabe que a cobertura vegetal é primordial para a proteção dos mananciais, para a qualidade e quantidade de água nos rios, para a proteção da biodiversidade, dentre tantas vantagens que se pode enumerar. A árvore ou as árvores tem um papel preponderante na qualidade do ar, na retenção de carbono, na produção de evapotranspiração, ou seja, é essencial no equilíbrio sistêmico do nosso planeta.

A Amazônia é a maior floresta tropical do planeta Terra e está situada na América do Sul. Ela é produtora de água que alimenta o interior do Brasil, dando suporte a regulação das chuvas nas regiões Centro Oeste, Sudeste e Sul do Brasil e, até mesmo, em alguns momentos, ao nordeste brasileiro. Os rios do Brasil dependem dessa água da Amazônia. Para manter essa dinâmica é necessário manter a floresta em pé, é necessário a preservação desse ambiente.

Temos que preservar nossos biomas. Chega de desmatamento! O cerrado, o pantanal, a floresta amazônica estão passando por uma pressão tremenda, tanto através dos garimpeiros, quanto dos agricultores. Isso tem consequências, ou seja, o desmatamento desenfreado trará (já está trazendo) consequências drásticas para o clima brasileiro. Não interessa à população brasileira a savazinação da Amazônia. Embora essa mesma população não tenha noção dos reflexos que esse desmatamento provocará no ambiente, cabe ao poder público gerenciar esse problema e não incentivar a retirada indiscriminada das árvores dessa região, através de declarações equivocadas. Quem não se recorda do ministro do meio ambiente de Bolsonaro, em uma reunião, afirmando claramente em “passar a boiada?” (Esse termo foi usado referindo-se a mudanças das regras na questão ambiental, no momento da pandemia. Fica claro que essas mudanças sugeridas pelo ministro Salles refletiam no afrouxamento das regras de proteção ambiental).

… Então pra isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De IPHAN, de ministério da Agricultura, de ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo. Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação, é de regulatório que nós precisamos, em todos os aspectos. – ex-Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salle.s

Por outro lado, alguns indícios são notados na dinâmica do clima, em algumas regiões do Brasil. O que antes estava distante do Brasil, que são essas colunas de poeiras (tempestades de poeiras) circulando na atmosfera de países da África, da Oceania e Ásia, agora são intensa e mais frequentes no Brasil. Esses paredões de até 15 quilômetros de altura de partículas em suspensão são, cada vez mais, comuns em rincões que são paraísos do agronegócio brasileiro, principalmente no interior do estado de São Paulo.

Também se observou que períodos de estiagem na região central do Brasil costuma terminar em setembro com a chegada da primavera e os temporais típicos dessa época. Não foi o que aconteceu nos últimos dois anos. A seca tem-se estendido mais além de setembro. O início das chuvas tem-se retardado. Com esse retardamento, o solo permanece seco e associados aos vendavais, que antecedem a chegada das frentes frias, tem-se os haboob, sou seja, tempestades de areia (haboob termo árabe que significa “o destruidor”).

As precipitações reduzidas desde 2020 amplificaram primeiramente os efeitos das crescentes queimadas no Pantanal e na Amazônia. Em 2021, a novidade ficou por conta dessas tempestades de poeira. As tempestades de areia, no interior paulista, são ocasionadas por ventos e temporais que entram em contato com o solo seco e desmatado. Assim, pode-se observar que a vegetação tem um papel de proteção do solo. Caso esses solos estivessem protegidos, com alguma cobertura vegetal, tal fenômeno não estaria ocorrendo, nessa magnitude, nessas regiões brasileiras.

Qual a consequência dessas tempestades de areia? Com proporções distintas, a tempestade de terra e areia em São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Maranhão apresentou uma nova variável para análise sobre questões ambientais para o Brasil. Embora essas tempestades sejam registradas em períodos de seca de forma pontual, todos os anos, alguns casos recentes, com o da região de Franca e Rio Preto chamaram a atenção pela força e intensidade. Segundo o professor Marcelo Pereira (departamento de Biologia da USP) o registro desses fenômenos está associado a fatores locais e fatores de outra escala, mais ampla, tal como a devastação recorde da Amazônia. A evapotranspiração (umidade liberada no ambiente pelas árvores) regula o regime de chuvas de outras partes do país. A umidade é transportada pelos ventos em direção ao oceano Pacífico, mas a cordilheira dos Andes acaba rebatendo essa umidade para o interior do Brasil (região Sul e Sudeste). São essas massas de vapor de água que regulam nossas chuvas, ou seja, a chuva dessas regiões. Associado a isso, tem-se os efeitos locais, tais como as queimadas nos locais atingidos pelo fenômeno. Essas queimadas deixam fuligem e vegetação destruídas. As partículas entram em suspensão com a força dos ventos, espalhando um material prejudicial à saúde. A professora Mercedes Bustamente (departamento de Ecologia da UNB) explica que o impacto das rajadas de vento afeta ainda mais o solo já castigado pela seca, removendo as camadas mais superficiais (camadas onde se encontra a maior riqueza de nutrientes e microorganismos). Aquela nuvem avermelhada da região nada mais é do que o latossolo, um solo muito nobre e altamente produtivo em termos de agricultura.

Essas tempestades também afetam muito a parte respiratória, não só durante a tempestade, mas também pelas partículas que ficam na atmosfera por alguns dias, segundo Rafael Futoshi Mizutani (pneumologista do instituto do coração: InCor). Segundo Mizutani essas partículas menores continuam pairando no ar após a tempestade, só se diluindo quando chove ou são arrastadas pelos ventos fortes, ocasionalmente na região.  

Uma vez mais constata-se que essas regiões afetadas, por essas enormes tempestades, é uma zona agrícola com extensas áreas de solo sem cobertura vegetal, portanto sem a proteção que a natureza oferece gratuitamente e o homem não entende como necessária para sua subsistência.

Autor:

Prof. Dr Jonas T Nery, professor aposentado.

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