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sábado, 22 de janeiro de 2022

Dos Grandes Feitos do Passado às Migalhas do Futuro

Na época que antecedeu o século XX e XIX, no Brasil e no resto do mundo as crônicas eram sinônimos de maravilhas atemporais e olímpicas. As Grandes Navegações, em particular, foram episódios que rechearam inúmeras páginas de cadernos de diversos autores.

As crônicas traziam o gosto da aventura, o cheiro e o sabor do mar salgado, seja à bordo de uma nau a caminho da América, ou do convés do Peregrino da Alvorada. Até mesmo atualmente encontramos escritores que posicionam “crônicas” no início de seus títulos – Crônicas de Gelo e Fogo, Crônicas de Amor e Ódio, As Crônicas de Spiderwick. E isso porque, definitivamente, eles sabem o poder dessa pequena palavra. Uma palavra que apela à imaginação e induz às leituras frenéticas pela madrugada.

No entanto, os tempos nos quais “crônica” era um sinônimo de incríveis aventuras se foram. O termo renasceu como uma abertura à narrativa de rotinas diárias, a bela mediocridade da vida nas cidades. Porém, mais do que isso, as crônicas atuais abrem possibilidades para críticas sociais, posicionamentos políticos e exibições de aspectos negativos da sociedade e da história atual. Uma mudança possivelmente não tão ruim, certo? Afinal, grandes feitos deixaram de ser realizados, as pequenas conquistas se tornaram os grandes feitos de hoje, ou apenas não ligamos mais para os extraordinários triunfos literários como os que preenchiam as crônicas de outrora? Que mudanças drásticas abateram-se sobre a humanidade para que histórias como as das Grandes Navegações fossem substituídas por narrativas sobre bares e quartos fechados?

A escrita puramente fantasiosa e pitoresca se foi juntamente com o desejo ávido pelo desconhecido, o qual inundava as almas de músicos, cientistas e exploradores do passado?

Porém não, peço que não entenda minhas palavras como um ataque ao gênero das crônicas atuais. São textos que, quando escritos decentemente, promovem filosofias e devaneios que evidenciam as pequenas belezas de uma vida comum.

Contudo, como disse o personagem de Stephen King, Bill Denbrough, em seu livro “It: A Coisa”, por que todas as histórias que escrevemos tem que possuir marcos de críticas sociais, ou discursos políticos sobre partidos que nem sequer lerão nossos pequenos e revoltosos parágrafos?

Não faltam escritores que recheiam as páginas de seus cadernos com filosofias sobre o lixo de seus vizinhos ou sobre como a bola de futebol brilhava sobre o gramado conforme os rapazes a chutavam em direção às traves. É claro, toda a história que possui a alma de seu escritor junto às palavras torna-se bela. No entanto, o que provocam as histórias rotineiras e cotidianas no coração de leitores que desejam mais do que tudo escapar da realidade? Para mundos distantes como a Terra Média e Idris, onde não há tais coisas como a rotina em meio às aventuras e feitos fantásticos de nossos heróis.

Bobeira, eu sei. Criticar o modo como as crônicas são escritas através de uma crônica, apenas por não apreciar o seu conteúdo – “apenas não as leia, oras!”.

No entanto, desejo apenas salientar que não é de meu encargo ofender aos cronistas ou às suas crônicas de aspectos rotineiros, políticos e sociais. Apenas apresento meu descontentamento com o uso do termo “crônica” – tão poderoso, de caráter pitoresco, com criaturas e terras distantes – sendo desperdiçado em histórias que não fazem a imaginação voar e o coração disparar diante dos perigos e das aventuras, diante do romance e do mistério.

Juntamente a isso, evidencio minha preocupação com a alma literária de nossa tão querida humanidade. De excursões marítimas bem detalhadas, rumo ao desconhecido, para descrições bem detalhadas do percurso de pedestres em uma calçada e as filosofias atreladas a eles. Há gostos e gostos, entendo. Por isso, espero que essa seja apenas uma fase de pequenas e simples descobertas imortalizadas em nossas crônicas atuais, ao invés de um desfalecimento gradual da possibilidade imaginativa e criativa de nossos cronistas.

Autora:

Rebecca Valentino dos Santos
Instagram: @heranfell

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