Alzheimer

0
113

O Senhor Geraldo segue seu caminho com uma boneca ao colo.

Seus passos são lentos e largos, parece intrigado e tenta pisar no centro de sua sombra.

Súbitos emocionais de sua infância se confundem com a realidade presente.

Publicidade

Como dói amanhecer órfão em sua velhice!

Num impulso, ele abre os braços;

Alícia cai de costas. Ele se apavora, uma vizinha se apressa para ajudá-lo.

Ele chora, precisa socorrer sua bebê, não permite que a vizinha o ajude.

Está desesperado, implora o perdão de Alícia.

– Sua mãe vai ficar furiosa, minha criança!

Ampara-a e retorna correndo para casa. A filha o encontra, estava a sua procura.

– Paizinho! O Senhor saiu sem avisar.

– Zema, veja! Ela caiu! Ela caiu do meu colo. Foi o velho no chão! Eu estava tentando acertar sua barriga, mas ele continuava, Zema! Ele continuava…

– Pai, eu sou Alícia, estou aqui, estou bem. Vem, paizinho!

– Não, Zema! Ela está tão calada, não diz nada, e nem chorou ao cair… A nossa menina bateu a cabeça, bateu forte no cimento. Havia a sombra de um homem no chão, a nossa frente, era a imagem escura de um velho, e ele a levava abraçada contra seu peito. Eu quis salvá-la! Vamos! Vamos! Precisamos de um médico!

Alícia chora e o abraça:

– Ela está bem, não precisamos de um médico.

Não! Não, Zema! Não somos nós. É a menina, a menina precisa. É para ela…

Será crueldade da noite devolvê-lo com aparente sarcasmo aos seus dias de sol?

Todos esperamos o milagre de uma morte calma, sem sustos.

Sem sustos!

O Senhor Geraldo divaga nos fragmentos de sua essência.

Riso a riso, dor a dor, pedra a pedra…

Abandona-se sem limitações ao passado.

O esquecimento é um antídoto transgressor, atua muito além da névoa fria da decomposição física.

Que os nuncas de suas memórias jamais o abandonem!

Adeus às tristes verdades!

Bem-vindas as adoráveis ilusões!

Autora:

Laila Zanov 

Deixe uma resposta