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domingo, 17 de outubro de 2021

Política é arte/ciência de governar e não empoderamento. É o eleitor quem faz o ‘poderoso’ ou o ‘artista’.

Ao que tudo indica, o retrato vivenciado na atual conjuntura brasileira é fruto de ignorância, por parte de grande maioria de eleitores, incluindo o presidente do país — se é que o ser que assim se identifica pode ser considerado como tal dado seu comportamento, que chega próximo ao ridículo —, em matéria de política.

Para melhor compreensão, vale trazer à discussão alguns pontos esclarecedores sobre o termo ‘política’.

Inicialmente, esse termo fazia alusão ao urbano, ao civil, ao público. Foi o filósofo Aristóteles (384-322 a.C), que em sua obra ‘Política’ desenvolveu o primeiro adjacente sobre a natureza, funções e divisão do Estado — conjunto das instituições que dominam e gerem um país —, bem como os formatos de governo.

Tomando o que afirma Aristóteles, política é a arte/ciência do governo, a reflexão sobre tais questões. Tanto que, por muito tempo, esse termo foi, de maneira frequente, usado para designar estudos dedicados às atividades humanas referentes ao Estado, que na atualidade pode ser sintetizada como ‘ciência política’, passando a designar as atividades e as práticas relacionadas ao exercício do poder de Estado.

Ao tratar da ‘política’, FOUCAULT (1979), defende que o poder não está situado em uma instituição, e, não é transferido por contratos jurídicos ou políticos. O autor defende que na teoria tradicional, o Estado monopoliza o poder. Por outro lado, aponta a existência de uma rede de poder proferido ao Estado que usurpa toda a estrutura social. Para ele, é preciso ver de que forma as forças se relacionam com estrutura mais geral de domínio. Portanto, o poder é um conjunto de afinidades que causa assimetrias e atua de forma constante, se irradiando do menor para o maior, apoiando os interesses de autoridade, mormente os ‘poderes’ estabelecidos do Estado.

Aprendido como forma de atividade ou de prática humana, o termo ‘política’, está estreitamente unido ao conceito de poder. Bertrand Russell (1872-1970) define o poder como todos os meios que consentem conseguir os efeitos desejados, sendo um deles, o domínio de seres humanos uns sobre os outros, ou seja, a relação entre sujeitos onde um impõe sua vontade ao outro, ainda que isso não seja um fim em si, mas um meio de se obter algum tipo de vantagem.

Fica evidente que o poder político pertence à categoria do poder do homem sobre o outro homem e não sobre a natureza e essa relação pode ser manifestada de diversas formas: entre governantes e governados; entre soberanos e súditos; entre Estado e cidadãos, por exemplo. Mas em qualquer hipótese, o poder político tem sido marcante na sociedade.

Diante do exposto, e, considerando a realidade brasileira, meditar sobre a importância de opções no ato do voto torna-se comportamento necessário, pois, toda a sociedade paga, a preço alto, com escolhas erradas. Porquanto, assistimos, principalmente agora, um momento perturbado por conta da delegação de poder político a pessoas descredenciadas ao exercício do cargo público.A ocasião requer reflexões por parte de todos os brasileiros — pelo menos daqueles que queiram agir com prudência, e, ainda, daqueles que estão sendo direcionados novamente ao mote dos excluídos — no que tange às questões de governabilidade, visto que estamos vivenciando, talvez, um dos piores momentos de nossa história, desde a redemocratização e a constituição de 1988.

Verifica-se uma grande aberração acerca do conceito de ‘política’, quando os espaços de poder não estão sendo utilizados, em grande maioria das vezes, para a solidificação da democracia, e, tampouco, para assegurar a promoção do bem-estar da sociedade, principalmente, na assistência aos menos favorecidos, ainda que a melhor assistência seja a geração de emprego/trabalho, o que na realidade é o único caminho para a dignidade de qualquer pessoa.

Não se pode negar que há jogo de interesses entre o executivo e o legislativo e esse jogo — um meio de se conseguir vantagem segundo Bertrand Russell — impede o avanço, no país, pois, na maioria das vezes os projetos são negociados, e, a preço de ouro. O da reforma da previdência, por exemplo, que furtou direitos adquiridos por meio de muitas lutas dos trabalhadores, e, que fora imposta sem a participação efetiva daqueles que geram as riquezas nacionais. Ressalta-se, igualmente, a manobra politiqueira que pretende disponibilizar dinheiro, por meio de programa social, com a finalidade de cooptar votos da classe miserável em um processo com foco na reeleição.

Para tanto, a sociedade precisa se organizar a fim de que, em curto prazo, o valor nobre da ‘política’ seja arrebatado e esta venha ser autenticada como o melhor instrumento para a construção de uma sociedade justa e solidária. A experiência de agora é grande lição e aponta a necessidade de formação de lideranças com referenciais políticos e ideológicos que tenham como prioridade o povo, pois, os problemas do país são inerentes à política, e, lideranças que ora ocupam o poder, têm se mostrado, a cada dia, descredenciadas a estarem nos espaços de governança. E para piorar, utilizam tais ambientes e poder para benefício individual, menosprezando a coletividade.

Na conjuntura atual brasileira, o distanciamento e conflitos do presidente com os demais poderes indica seu completo despreparo para o exercício político (de poder).

Portanto, o país não pode assistir a tudo isso sem se manifestar, sem lutar pelo restabelecimento do poder do povo no governo, sem agir para afastar o inábil que que foi colocado na conduta do Executivo. E isso, se não for feito pelo caminho do impeachment, por exemplo, precisa ser efetivado por meio do voto nas próximas eleições, evidentemente. Se é que a sociedade consiga enxergar outras possibilidades senão as que estão sendo praticadas na atual conjuntura. Ou seja: a mentira, o ridículo, a vergonha a que o país está sendo submetido em nível mundial, o avanço da fome, o alargamento da miséria, o estímulo à violência, a difamação do Brasil … o nada.

Pedro Paulino da Silva é graduado em Ciências Sociais pela FAFI Ciências e Letras Madre Gertrudes de São José / Cachoeiro de Itapemirim e Mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo.

Referência 

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

Autor:

Pedro Paulino da Silva

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