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domingo, 17 de outubro de 2021

O dia do bom senso

Certas datas ganham nomes especiais por terem nelas ocorrido fatos representativos ou singulares para alguém ou para uma comunidade. Por exemplo, para os brasilienses, 21 de abril é Aniversário de Brasília, neste dia, em 1960 a Capital foi inaugurada, após 3 anos e 10 meses de construção. O longínquo 9 de janeiro de 1822 deu nome ao Dia do Fico, no qual o Regente Pedro de Alcântara insubordinou-se contra determinações das cortes portuguesas que pretendiam retornar o Brasil à condição de colônia e, claro, 7 de setembro é o Dia da Independência, que a cada ano, nos faz relembrar e reviver a história da nossa pátria. Neste ano, há algo mais a comemorar.

Ainda muito menino, logo após o fim da II Guerra, a cada 7 de setembro, meu pai, que havia prestado o serviço militar nos Fuzileiros Navais, orgulhoso, levava-me para ver a Parada. A população, conhecedora dos feitos heroicos dos nossos homens nos céus e terras europeias, enchia a Avenida no Rio de Janeiro. Pude ver ainda muitos dos que comandaram a Força Expedicionária. “A cobra vai fumar”, seu símbolo era conhecido da garotada de então. O heroísmo e a competência dos pilotos da FAB viraram lendas entre os meninos, ansiosos pelas aventuras da vida adulta.

Com a mudança da capital, a Parada Militar oficial, aquela na qual o país mostra seus efetivos, seus armamentos, sua disposição na defesa da pátria, mudou-se para a capital. Devido à pandemia em 2020 e 2021 as comemorações de rua foram suspensas, restringindo-se às instalações militares e a sobrevoos de aeronaves bélicas.

Desde aquele 7 de setembro, há 199 anos, a população brasileira, por expressiva maioria, tem-se manifestado por valores democráticos e pela integridade de seu território. As representações políticas consagraram esses valores nas constituições, exemplar é a atual, a de 1988, promulgada após longo período de exceção, e elaborada com a participação de todas as forças vivas da nacionalidade.

Nos últimos meses, foram criadas fortes tensões entre os poderes da República, potencializadas pela crise sanitária, pelos desarranjos econômicos, pelas imprevidências energéticas (a crise de 2001 não foi devidamente resolvida até hoje) e fomos todos levados a um estado de ansiedade pré-fabricado: “greve dos caminhoneiros, corrida aos mercados, abasteçam suas casas; comprem fuzis; ou agora ou Venezuela amanhã”.

Misturam verdades com cenários de horror. Como ignorar a roubalheira de antes, o acerto acintoso sob nossos narizes com ditaduras sanguinárias, o mudar o entendimento de leis para passar a borracha e limpar a folha corrida de ladrões, tudo em nome de ideologias – ou de agradecimentos. É preciso não esquecer, mas não temer a ponto de ir buscar o simétrico tão igual ao antes.

Marcou-se a data. 7 de setembro. Vamos tirar, “na marra” todos os ministros do STF, fechar o Congresso e sei eu lá mais o quê. Redes sociais inflamadas e incautos repassando fakenews como loucos desvairados. Clima de fim do mundo, criado com propósitos inconfessáveis. Só não viu quem não quis.

A democracia exige um aprendizado lento. As intervenções cirúrgicas tentando implantá-la, como se fosse um terceiro pulmão para nos trazer fôlego, o oxigênio das liberdades, para suportar limites tão duros, além de não conseguir, em geral, a retardam e deformam tão gravemente o organismo político-social que sua restauração pode levar décadas. Além do risco do sequestro de seus valores por candidatos a ditadores sempre à espreita.

Ao se manterem tranquilas em seus quarteis, as Forças Armadas mandaram um recado, desculpem, uma mensagem, de bom-senso aos nossos políticos, aos nossos magistrados e, porque não dizer, ao Presidente: “Tenham juízo, o povo está de olho em vocês! Não contem conosco em suas aventuras”.

E, ao não se deixarem envolver, descobriram, e nós também, que os litigantes, numa magistral representação teatral, jogavam conosco o jogo do ódio infernal, enquanto seus interlocutores providenciavam o encontro, a ligação telefônica, o elogio após o insulto, tudo no melhor estilo da baixa política.

Eu e você com a despensa abarrotada de alimentos, os caminhoneiros parados, entupindo estradas, pagando diesel a preços altíssimos, no sol inclemente do desconforto dos acostamentos, gastando sem faturar. Amigos perdendo amigos, filhos em desavença com pais. Dizem que gentileza gera gentileza, mas com certeza, ódio gera ódio.

O recado mudo, dos quarteis, se entendi bem, deste 7 de Setembro sem Parada, sem palanque e sem discurso foi o mais sério que já ouvi nesta minha longa vida:

A uns, “Façam leis justas, esqueçam dos seus interesses pessoais, pensem no Brasil.”

A outros: “Ajam com a Justiça que aprenderam nas universidades, não se movam pelos interesses escusos e pelos agradecimentos aos cargos que ocupam, vocês têm valores próprios, e se não os têm sempre é tempo de alcançá-los”.

E por fim, “Presidente, deixe seu retrato na galeria dos comandantes supremos das Forças Armadas que defendem a democracia e a soberania da nação, como secular e repetidamente seu povo vem pedindo.”

“Mas não contem conosco em suas aventuras, não estamos aqui para isso”.

7 de Setembro de 2021, 199º ano da Independência. Dia do Bom Senso.

Crônicas da Madrugada.

Autor:

Danilo Sili Borges, membro da Academia Rotária de Letras do Distrito Federal. ABROL BRASÍLIA. Brasília – Set. 2021. danilosiliborges@gmail.com

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