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quinta-feira, 17 de junho de 2021

Romance à três

Minhas crônicas de quinta.

Ele está em suas mãos e você na dele. Você clica em seus botões (que nem botões são) e tem o controle, ao mesmo tempo em que ele te domina.

Você quer um namorado e conta com ele pra conseguir. Ele promete tirar-lhe da solidão. Te mostra um cardápio de possíveis namorados (e até amigos, ou crushes e contatinhos) enquanto te coloca no cardápio deles também. Até que você dá um match, que significa, em bom português: pescar e ser pescado ao mesmo tempo.

Ele te dá possíveis inícios de conversa: “manda um oi”, te sugere, e você vai na onda.

Tudo certo! O papo tá rolando e você e o match decidem se encontrar. Através dele o carinha reserva uma mesa no restaurante japonês e você chama o uber. Com ele, vocês conversam bastante, até, finalmente, encontrarem-se de fato. Cumprimentam-se, vão à mesa e, por ele, enviam o pedido à cozinha. Sem ele, vocês comem!

Satisfeitos, ao fim do jantar, dividem a conta e, com ele, pagam-a num PIX (no caso, em 2).

No carro do moço, vocês colocam Fast Car, da Tracy Chapman pra tocar, com ele, claro. E, com ele, também, vocês desviam dos engarrafamentos que poderiam encontrar no caminho até a casa do rapaz. Antes de chegarem lá, vocês param e resolvem mudar os planos. Perguntam pra ele o que tem pra fazer hoje na cidade. Ele lhes dá algumas opções… difícil é decidir. Por que ele não faz isso também?

No fim das contas, vocês decidem pedir, por ele, uma garrafa de vinho. Agora vocês têm que chegar logo em casa… antes do vinho – que já tá pago. Nessa, vocês encontram o motoboy já no portão com a garrafa, e então, se agradecem mutuamente e o garoto vai embora – com ele.

Lá dentro, enquanto vocês tomam o vinho e conversam, ele os avisa sobre a previsão do tempo: “Alerta: tempestade se aproxima da região.”. Ele os avisa de tudo. “Alerta: post novo de @alguminfluencerqueeusigo”.

Até que, diante do “Alerta: bateria fraca”, eles todos te abandonam.

Agora é só você e o possível namorado, que ainda conta com os dele. O vinho está quase no fim e o carinha te convida pra assistir uma coisa com ele, ou melhor, com eles. Eles te mostram um cardápio de coisas pra ver… difícil é decidir. Por que ele não faz isso também?

No fim das contas, o tempo ruim faz a energia cair e vocês precisam deixá-lo pra lá. Ele também tem suas dependências, seus bugs e vícios, e às vezes te abandona, do nada. Isso pode ser muito bom e muito ruim ao mesmo tempo. Porém, no que ele te larga, também te liberta – ou desespera. Aí vai da ocasião… nesse caso, foi muito bom.

Quem diria que o ser humano desenvolveria um terceiro braço, chamado App? É assim que, aos poucos, nos tornamos ciborgues?

Luana Carvalho
Arquiteta, cria da Unesp - Presidente Prudente. Brasileira, com 27 anos de sonho e de sangue, e de América do Sul. Escrevo porque não sei guardar segredo.

2 COMENTÁRIOS

  1. Caramba! Sensacional!
    Confesso que no início fiquei um pouco perdida hahahahah, mas logo me achei e comecei a olhar por um outro lado o texto.
    Gostei muito da forma como a escritora nos conduziu através da narrativa, prendendo do início ao fim.
    Mil vezes parabéns, Luana! Ótimo trabalho! ^^

    • Hahahahaha, obrigada, Mariana! Realmente, o leitor só vai entender quem é “ele” ou quem são “eles” no final do texto, né? Fico feliz que tenha gostado. Um abraço!

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