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quinta-feira, 17 de junho de 2021

As três Marias

Minhas crônicas de quinta.

Com todo o respeito, peço licença para te contar uma história que aconteceu no verão passado. Para alguns, ela pode soar imoral e causar desconforto, e, por isso, talvez nem queiram ler. Talvez, também não compactuem com os fatos que serão descritos. De todo modo, livre de julgamentos, essa breve, banal e emocionante história aconteceu… Onde? Sei lá, imagina um lugar aí, perto da sua casa…

Tudo começou quando a jovem Maria Roberta, no alto de seus 21 anos, trouxe para casa (que era menos sua que de seus pais) umas sementes ganhadas de um conhecido lá do rolê que acabara de voltar. Essas sementes eram gordinhas e marrons, e mediam mais ou menos cinco milímetros de diâmetro. Roberta sabia muito bem quem eram elas: eram sementes imorais.

Não somente imorais, mas também ilegais.

Sim, caro leitor (parafraseando Machado de Assis), sem mais delongas, eram sementes de maconha. Marijuana, pros hermanitos de plantão. Naturalmente, dentro delas, estava compactado todo o potencial de uma planta. Potencial que Roberta queria muito liberar.

Este seria o primeiro cultivo canabiótico da jovem. A moça estava muito entusiasmada e, também, ansiosa para cuidar de sua nova cria vegetal. Em sua casa já tinha uma coleção de plantas, algumas até venenosas, mas nenhuma delas imoral. A Roberta já tinha sentido os efeitos das flores trituradas e queimadas ao tragá-las, igual tabaco, para dentro de si algumas vezes nuns desses rolês (na verdade, ela tinha sentido os efeitos das flores misturadas com sabe-se lá o quê, de uns desses prensadinhos, produtos do tráfico…), no entanto, Maria Roberta, que já experimentava e conversava bastante sobre o assunto, nunca tinha visto uma singela e inocente plantinha de perto.

Disposta a correr alguns riscos (afinal, correr riscos faz parte do “corre”), ela iniciaria sua aventura logo que acordasse.

A manhã seguinte era um sábado de sol. Apesar de acordar um pouco “ressacosa”, a moça estava bem e prontíssima para iniciar a experiência. Após tomar o café, a primeira coisa que fez foi planejar suas próximas ações as quais seguiriam duas regras: a planta não poderia morrer, e nem ser vista por ninguém além da própria Roberta. Dessas duas regras partiu o seu plano (que, convenhamos, tinha tudo pra dar errado). Tudo o que faria seria no intuito de reduzir ao máximo os riscos ao bem estar e à saúde dela e da planta que nasceria. Tarefa difícil, afinal, como cultivar às escuras uma planta que precisa de luz para viver?

Pois além de ousada, corajosa e arteira, nossa protagonista era boa de pesquisa. Baseada em bons tutoriais encontrados na internet, ela já sabia o que precisaria fazer em relação à saúde da “Maria Joana”, como batizara seu bebê antes mesmo de saber o sexo. Seguiria ao máximo os protocolos e macetes de germinação e cuidados para que sua pequena erva vingasse. Basicamente, ela precisaria daquilo que, em maior ou menor grau, toda planta precisa: sol e água. Nesse caso, em abundância.

Sua jornada prática iniciava-se com a germinação. Essa parte foi fácil! Foi só ajustar os níveis de umidade, calor e luz. Espalhar e envolver as sementes em papel absorvente úmido e guardá-las por uma semana no fundo de uma gaveta, averiguando de vez em quando o grau de umidade e o desenvolvimento da pequena raiz.

Feito! Uma semana depois duas delas germinaram. Nasciam, então, Maria Joana I e Maria Joana II – ela teve que improvisar no registro de nomes.

A partir daí é que a aventura começou de verdade. As plantinhas precisavam ir para a terra e receber seus banhos de luz. Roberta poderia parar por ali – ela tinha medo do que poderia acontecer caso alguém da casa descobrisse que ela cultivava cannabis no quarto. Mas a jovem já estava encantada! Cheia de amores pelas pequenas raízes proibidas.

“- Tão lindas! As plantas são lindas. A germinação é uma coisa linda e mágica!” – falava consigo mesma enquanto finalmente plantava as pequenas, uma em cada potinho de requeijão.

Regou-as a ponto de umedecer bem a terra e em seguida liberou um espaço, perto da janela, pra que recebessem o primeiro banho de sol! Esse seria o espaço delas. E o desafio seria conseguir expô-las, diariamente, o maior tempo possível, à luz que batia ali.

Apesar das dificuldades – externas e internas, com ela e com as plantas –, as Marias Joanas cresciam lindas! Visivelmente saudáveis. Para Roberta, isso era motivo de orgulho e satisfação. Toda vez que as via – ao carregá-las para os banhos de sol e água – passava um tempo olhando-as, admirando e observando seus detalhes. Uma delas era maior. Em ambas, as folhinhas serrilhadas – a segunda duplina de folhas – já haviam brotado.

“- Que coisa mais linda e fofa!!” – a moça expressava sua admiração.

Independente de qualquer coisa, ela era, deveras, apaixonada pela flora. Junto com sua mãe e o seu pai, desde pequena aprendeu a cultivar as mais variadas espécies de flores, folhas, arbustos e árvores no extenso quintal da única casa em que vivera. Sentia-se triste por não poder compartilhar dessa experiência com seus pais.

Passada mais uma ou duas semanas, as Marias já estavam mais crescidas e com vários outros pares de folhas serrilhadas. Crescia junto, a preocupação da Maria que delas cuidava. A moça precisava levá-las para um lugar definitivo, pelo bem das plantinhas e próprio alívio. Não sabia exatamente o que fazer – isso desde o início – só sabia mesmo que as plantas precisavam de sol pleno e um solo regado.

Agindo sempre por impulso, a jovem Roberta resolveu que tiraria as plantas da sua casa. Só conseguiu pensar numa praça do bairro, grande, arborizada – com alguns espaços de pleno sol – e pouco movimentada. Era para lá que elas iam, ao menos por enquanto.

Sem removê-las do potinho, Roberta enfiou as Marias dentro de uma bolsa e levou-as até a praça. Colocou-as, com cuidado e amor (e também um pouco de tristeza e alívio) num lugarzinho de pleno sol e pouca visibilidade. Depois disso, dia sim, dia não, a moça ia até lá com uma garrafinha cheia d’água, ficava ali por um tempo e, disfarçadamente, regava suas meninas. Essa rotina também durou cerca de uma ou duas semanas e as plantas cresceram um tanto mais.

“- Meu Deus, elas não param de crescer! Isso é muito bom e muito ruim ao mesmo tempo!” – preocupava-se novamente a garota.

Suas idas à praça também lhe deixavam desconfortável. Sentia que parecia suspeita e sempre temia um flagrante. Agia como criminosa e isso lhe tirava demais a calma. Um misto de sensações tomavam conta do seu corpo: alegria, satisfação, medo, preocupação. Raiva. Raiva por não poder ser livre. Raiva pelo atraso legislativo. Ela sabia que recorreria àquele prensadinho ruim, traficado e violento… porque já gostava dos efeitos da erva em seu corpo, mas não podia ter a sua boa, particular, cultivada com amor, paciência, conexão espiritual e muita paz. Nada fazia sentido. Naquele instante lembrou do que disse Gabriel, o Pensador, sobre o Velho Índio: “Com tantas drogas, porque só o seu cachimbo é proibido?”

No dia seguinte, decepcionada, mas ainda com uma ponta de esperança, a jovem decidiu que procuraria um lugar mais afastado pra deixar definitivamente as plantas e torcer pra que todo o esforço até ali valesse de alguma coisa. Pegou uma bicicleta, foi até a praça e colocou as Marias na mochila, junto com uma pequena pá. Pedalou pelo bairro enquanto pensava para onde iria com elas. No trajeto, avistou alguns conhecidos, o que a deixou ainda mais angustiada.

A adrenalina já estava bem alta, quando, depois de rodar bastante, a moça caiu em uma rua um tanto deserta, paralela a um pasto de propriedade particular, porém, de fácil acesso. Era o sítio do Zequinha. O sol já se punha quando Roberta largou a bicicleta na beira da cerca e caminhou alguns metros, pasto adentro, em direção a uma fileira de arbustos que escondia uma represinha onde o gado e os equinos tomavam água ao pastarem por ali.

Já sem medir riscos à ela e às plantas, a última coisa que pensou foi:

“– Vou colocá-las aqui, perto dessa água, onde bate muito sol. E seja o que Deus quiser!”

Cavucou dois buracos e implantou as Marias.

Feito isso, ela olhou a última vez para as plantas e saiu em direção à cerca. Já estava escuro e levou um belo susto quando viu um casal de moto, parado em frente à sua bicicleta, talvez, à procura do dono daquele veículo largado na beira da rua escura e deserta. Não conseguiu enxergá-los direito, mas aparentemente olhavam em sua direção.

A reação mais rápida que teve foi a de encarar o casal (mesmo sem vê-los), com expressão intimidadora. Outra coisa que fez na hora, foi fingir que levantava as calças e que estava ali por qualquer emergência fisiológica. O casal foi embora e Roberta pegou sua bicicleta e zarpou pra casa.

Tempos depois ela voltou àquele lugar e lá já não tinha Maria nenhuma… talvez os cavalos tenham comido, ou talvez, elas tenham morrido de sede.

Moral da história? Como eu disse no começo, essa história não tem moral.

Luana Carvalho
Arquiteta, cria da Unesp - Presidente Prudente. Brasileira, com 27 anos de sonho e de sangue, e de América do Sul. Escrevo porque não sei guardar segredo.

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