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quinta-feira, 17 de junho de 2021

A Amazônia e as queimadas

O drama da destruição da floresta amazônica é um tema que envolve quase o mundo todo. Nas épocas de seca entre julho e setembro, quando as queimadas se somam aos milhares, a questão vem à tona com manchetes dos principais jornais do Brasil e do mundo.  É uma  velha questão.

No regime militar houve grande incentivo para a colonização de toda essa região, culminando com o megalomaníaco projeto da construção da transamazônica, uma extensa via que abriria a região ao avanço de pioneiros e colonizadores. Projetada para ter em torno de 8 mil quilômetros, pouco mais da metade foi construída, sendo que muito pouco chegou a ser pavimentada. Esse projeto é o símbolo máximo do esforço do governo militar para colonizar de forma intensiva toda a região norte.

Com o crescimento das preocupações com o meio ambiente e o fim do regime militar, houve uma inversão nos debates sobre aquela imensa extensão coberta de florestas. Agora o mote era preservá-la. A conferência sobre o meio ambiente, realizada no Rio de Janeiro e que deu origem a Carta Rio92, colocou o mundo de olho na região. Os acalorados debates sobre o aquecimento global – que tomou conta das manchetes alarmistas de boa parte da mídia e de muitas ONGs internacionais – penderam definitivamente a balança para o lado da preservação.  De quase todo o globo, na virada do século 20 para o 21, as pressões sobre os diferentes governos brasileiros para criar políticas de preservação, só cresceram. A floresta amazônica passou a ser chamada de  “o pulmão do mundo”.

Nos últimos 20 anos o esforço do governo para impedir o desmatamento tem se mostrado quase infrutífero.  O avanço da derrubada das matas, e a dimensão das queimadas, principalmente na época da estiagem, tem demonstrado que há muito pouco resultado nas proibições, fiscalizações e repressão aos grileiros, garimpeiros e posseiros que se espalham por todos a região, principalmente nos limites da cobertura vegetal nativa.  Outra questão nunca resolvida é da extração e comercialização de madeiras retiradas ilegalmente da floresta.

Com a eleição de Bolsonaro, o problema só se agravou. Sendo militar de carreira, este tem certa nostalgia da época em que todo o esforço do governo era povoar aquele imenso território quase intocado. Embora os tempos sejam outros e a relação do ser humano com a natureza tem alcançado outra dimensão, em que o que importa não é só preservar, mas também construir relação harmônica com o meio ambiente e não agredi-lo.

Bolsonaro terá que, ou adaptar-se a nova realidade, ou correrá o risco de isolar-se do mundo, principalmente em suas relações comerciais. A grande maioria das empresas ocidentais atrela suas importações do Brasil ao cuidado que o próprio tem para com o meio ambiente. O agronegócio que representa mais de um quarto da formação do PIB nacional e tende a crescer nos próximos anos pode ser duramente afetado. A pujança desse segmento da produção de riqueza do país, apoiada nas exportações, pode ficar irremediavelmente comprometida caso haja boicote internacional aos produtos brasileiros.

A solução não  é fácil, já que é uma questão que mostra profundos conflitos de interesses. Muitas das decisões, tomada nos gabinetes refrigerados de Brasília, dificilmente são consumadas, na prática, se considerar os interesses inconfessos de boa parte das autoridades da região, incluindo governadores. Esses almejam a expansão das áreas aproveitadas pela atividade humana. Por outro lado, os fiscais, aqueles que estão diretamente em contato com grileiros, madeireiros e especuladores de terra, estão sujeitos a corrupção ou à paralisia da atividade, motivada pela falta de recursos e de condições para realizarem seu trabalho.

Por outro lado, há certo fanatismo das ONGs ambientalistas. Estas defendem a intocabilidade de todo o bioma, como se fosse possível tornar um território, que ocupa quase a metade do território brasileiro, em uma reserva inviolável.  Impedir o avanço constante da colonização daquela área pode ser impossível. Falta um projeto que contemple alguma forma de aproveitamento humano dessa imensa área combinado com a preservação ou manutenção das florestas e da vida natural. Falta também convencer as populações diretamente envolvidas da importância de se estabelecer um equilíbrio entre o uso econômico da terra e a preservação ambiental. Com exceção dos criminosos, grileiros, madeiros ilegais e alguns outros, todos os colonizadores que habitam aquele bioma são pessoas honesta que desejam apenas ter um meio de vida para criar suas famílias.

Concentrar esforça apenas na legislação, na repressão e na caça às bruxas do desmatamento não resolve o problema. É hora de pensar a região como um poderoso pólo de desenvolvimento humano combinado com extremo cuidado de preservação dessa exuberante e bela paisagem chamada grande Amazônia.

Autor:

Abel Aquino

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