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quinta-feira, 6 de maio de 2021

Eis uma longa história…

Minhas crônicas de quinta.

Abri a página de um dicionário, e ela me trouxe o significado de simbiose:

sim·bi·o·se sf. 1. [biologia] Associação de dois indivíduos de espécies diferentes, com benefício mútuo (pelo menos aparente), como acontece com as algas e os fungos que constituem os líquens. 2. [figurado] Relação de cooperação que beneficia os dois envolvidos. 3. [figurado] Associação íntima.

Por coincidência, ou mero interesse (ou os dois), me deparei com um entre os tantos livros que removi da prateleira quando fui limpá-la, dois sábados atrás. Esse um me chamou atenção, e por isso, separei-o para ler depois. Tratava-se de um livro do professor e historiador Jaime Pinsky (das Estaduais Paulistas), de 1988. Seu título é: “As primeiras civilizações”. Sempre fui, mas ando especialmente interessada em assuntos históricos e antropológicos ultimamente. Ando mais interessada nos velhos costumes do que de costume (ba-dum-tsssss!).

Então eu li. Na verdade, estou na metade (e espero terminar, pois tenho essa incrível mania de engolir e ruminar só metade dos livros… mas isso é assunto para outra crônica…): estou na parte da Revolução Urbana, que foi o surgimento das primeiras cidades, lá no Crescente Fértil, Egito, Mesopotâmia e tal. Já passei pelo desenvolvimento do polegar opositor e aumento da caixa craniana; pelas aventuras do Homo erectus (que partiu do berço africano para outros continentes), e seu domínio do fogo; pelo surgimento do Homo sapiens sapiens – a nossa espécie –, e, pela Revolução Agrícola.

Aconteceu muita coisa, né? Coisas que nos transformaram substancialmente, enquanto espécie, e outras, que só mudaram a forma em que parte de nós passou a lidar com o mundo ao redor. Uma parte de nós, aos poucos, aprendeu a – de certo ponto de vista – dominar a natureza. É aí que entra a simbiose, a qual defini no começo desse texto: outra parte de nós, permaneceu em relação harmônica com o ambiente e com as outras espécies.

Aí, desenvolveram-se, grosseiramente falando, há milhares de milhas de distância, e sem mais conhecer o seu passado conjunto lá no berço africano, culturas drasticamente diferentes: a que seguiu a linha das Revoluções Agrícola e Urbana, do domínio das outras espécies, e da ideia de superioridade; e a que seguiu a linha da Simbiose, da vida conjunta com animais e plantas, e da ideia de igualdade e unidade.

si.mi.lar adj m e f. 1. Da mesma natureza ou espécie. 2. Semelhante; equivalente | sm. Coisa semelhante.

Por mais similares que fossem, exatamente nessa data, há 52 dezenas de anos mais 1, dois grupos humanos se chocaram, logo ali, na Bahia, na atual Porto Seguro. Até pareciam de espécies diferentes…

Os encontrados naquela praia, naquele ano, mantinham-se em simbiose com o meio, caçando, pescando e coletando o que as plantas dispunham, em suas épocas. Não tinham como e nem porquê se descolarem da Natureza, porque sabiam que deviam a ela o seu próprio alimento, e portanto, a sua vida. Por isso, religiosamente, a adoravam. Tinham tudo o que precisavam. Comiam bem, não faltava água, não tinham doenças (tais como o vírus) não passavam frio e também não tinham boletos, nem dinheiro (não existia isso de riqueza e pobreza, porque o ouro não tinha valor). Expressavam-se. Desenhavam e pintavam suas peles; construiam ferramentas, armas e ocas. Não escreviam, porque não precisavam disso. Dançavam e cantavam! E tudo estava bem! A vida, a arte e a filosofia se misturavam.

Isso tudo foi motivo de espanto, e os “achadores”, então, relataram as estranhezas. Veja bem, até o colorau, o nosso urucum entrou na história do Pero Vaz:

Alguns traziam uns ouriços verdes, de árvores, que, na cor, queriam parecer de castanheiras, embora mais pequenos. E eram cheios duns grãos vermelhos pequenos, que, esmagados entre os dedos, faziam tintura muito vermelha, je que eles andavam tintos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam.”

Ou será que estranho era aquele povo cheio de roupas?! O que eles queriam? E quem eram eles? Ninguém entendia… Aí o choque cultural se estendeu mata à dentro e prossegue até hoje.

Nos dias que seguiram ao “achamento” do Brasil, o escrivão continuou a descrever o que via, por muitas páginas. Em outra parte ele escreveu assim:

Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimária, que acostumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e fruitos, que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos. Neste dia, enquanto ali andaram, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som dum tamboril dos nossos, maneira que são muito mais nossos amigos que nós seus.

sim.pá.ti.co adj. 1. Relativo a simpatia. 2. Que inspira simpatia. 3. Que agrada ou atrai. 4. Amável, afável.

Como a carta caiu no esquecimento e o velho português já não cabia, há cerca de 3 décadas e meia atrás, um Trovador Solitário, por meio da música popular brasileira, retomou aqueles dias pelo olhar dos “achados”, dizendo assim: “Quem me dera ao menos uma vez ter de volta todo o ouro que entreguei a quem conseguiu me convencer que era prova de amizade se alguém levasse embora até o que eu não tinha

sin.ce.ro adj. 1. Que usa de sinceridade, franco. 2. Sentido, verdadeiro. 3. Honesto, leal. 4. Simples; natural.

Quem me dera, ao menos uma vez, esquecer que acreditei que era por brincadeira que se cortava sempre um pano de chão de linho nobre e pura seda

sim.pló.ri.o adj. 1.Ingênuo, inocente, crédulo; que se deixa enganar. | sm. 2. Indivíduo sem malícia que facilmente se deixa enganar, papalvo.

Quem me dera, ao menos uma vez, que o mais simples fosse visto como o mais importante, mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente

si.mu.la.ção sf. 1. Ato ou efeito de simular. 2. Fingimento. 3. Disfarce. 4. Diferença entre a vontade e a declaração, estabelecida por acordo entre as partes, com o intuito de enganar terceiros.

si.len.ci.ar vt e vi. Guardar silêncio (sobre) |vt. 1. Impor silêncio a; calar. 2. Omitir, não mencionar. 3. [figurado] assassinar.

O Brasil é a mistura da própria História da Humanidade. O Berço africano, a Simbiose indígena e a Revolução Agrícola e Urbana que da África foi para a Europa… O povo brasileiro descende daquelas duas grandes linhas culturais: a do domínio das outras espécies, e da ideia de superioridade; e a da vida conjunta com animais e plantas, e da ideia de igualdade e unidade. Cabe a cada um de nós conhecer a nossa história e entender quem realmente somos. A cara do Brasil, é cara de índio, de branco e de preto. A cultura também.

Para arrematar essa história, que não termina agora, deixo um último significado, encontrado na mesma página do dicionário, de onde tirei os outros:

sin.cre.tis.mo sm. 1. [religião] Fenômeno de fusão de diferentes doutrinas ou práticas religiosas. 2. [filosofia] Sistema resultante da harmonização de diferentes teorias ou conceitos filosóficos. 3. Fusão de elementos culturais diferentes.

Luana Carvalho
Arquiteta, cria da Unesp - Presidente Prudente. Brasileira, com 27 anos de sonho e de sangue, e de América do Sul. Escrevo porque não sei guardar segredo.

2 COMENTÁRIOS

  1. Luana,
    saí de Assis, fui para a USP, depois para a Unicamp. Parece que mais gente se interessou pelo livro “As primeiras civilizações”: ele ainda circula muito bem, tem novas edições e é adotado pelo Brasil afora. O google capturou citação sua e me remeteu para sua crônica bem escrita e com formato original. Parabéns pelo trabalho. E, antes que eu esqueça, desta vez leia o livro inteiro, não pare pela metade. Escrevi com carinho para gente sensível como você.

    • Jaime, que honra! Por essa eu não esperava. Fico feliz demais que vc tenha “achado”, lido e gostado desse texto, que teve como uma das grandes inspirações o seu “livrinho”, como vc msm se referiu à ele em alguma página. Encontrei-o há muitos meses atrás, em um sebo, e me chamou atenção. Trouxe para casa e guardei entre os outros, para lê-lo um dia. E aqui estou, lendo aos pouquinhos (tenho isso de ruminar), e com certeza terminarei nos próximos dias. É uma leitura mto gostosa, que nos prende. Parabéns pelo trabalho! Ele é mto importante! E obrigada pelas palavras. Até!

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