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quarta-feira, 21 de abril de 2021

Um Diferente Pôr do Sol

Mauro vive uma vida pacata nos arredores de Bragança. É casado, mas nem ele nem sua esposa Clara se sentem assim há alguns anos. Nunca tiveram filhos, e nenhuma cola que impedia Clara de fazer exatamente o que fez.

“Eu vou embora”, ela disse. 

Mauro não teve espaço para argumentar. Nem espaço, nem vontade.

“Tudo bem.”, ele respondeu.

Talvez agora seja uma boa hora para contar que Mauro nunca soube guardar dinheiro. 

Depois de mais de 30 anos trabalhando numa fábrica de sapatos local, conseguiu guardar meros cinquenta reais e só porque ainda não havia achado um motivo para gastá-los. Mas agora ele tinha.

“Pode descer uma, Cleiton”, ele fala para o dono do bar de local, que de tanto vê-lo já se tornou quase que um irmão.

“Logo cedo assim?”

“A Clara foi embora.”

“Como assim?”

“Desse jeito… só se foi.”, disse Mauro enquanto bebia do copo em que foi servido.

“Não deu pra mudar a cabeça dela?”

Mauro não respondeu com palavras, apenas mexeu a cabeça. Admitir que não tentou fazer Clara ficar não condizia com o papel de vítima que estava fazendo.

“Não sei o que faço agora. Já não tenho dinheiro, agora então… sei nem onde vou morar”, disse.

“Olha, eu sei que você é orgulhoso”, começa Cleiton, “Mas talvez seja uma boa hora pra você ir visitar sua prima, aquela rica lá em Santa Catarina que você sempre fala que se deu bem.”

“Que jeito, Cleitinho… ela nem lembra que eu existo.”

“Você sempre fala que passaram a infância juntos.”

E passaram mesmo. Mauro e sua prima Rosilaine eram grudados quanto pequenos, e grande parte do motivo pelo qual se afastaram foi que Clara não aguentava algumas manias de Rosilaine.

“Ela mente muito”, Clara costumava dizer. “E eu acho que é bipolar.”

Claro, Mauro não acreditava. Cresceu com ela e nunca viu o padrão de uma mentirosa ou muito menos de uma bipolar. 

Para ele, era mais fácil Clara ser essas coisas do que sua doce e amada prima que, ainda por cima, havia se tornado uma cidadã da alta classe em uma cidade praiana de Santa Catarina.

O conselho de Cleiton ecoava na cabeça de Mauro. Ele havia perdido o contato, mas sabia a cidade em que ela estava e decidiu arriscar a sorte.

Após mais um mês de trabalho e salário, o qual Mauro achou que seria o último, ele partiu para Garopaba em Santa Catarina. 

Lá chegando, ficou maravilhado com a beleza do lugar e o quanto era diferente do lugar em que sempre viveu. Inclusive, não pôde deixar de pensar o quanto Clara iria gostar. 

Não que ele fosse saber, infelizmente, pois ele nunca a levou em uma viagem. Era uma das reclamações que ela fazia, constantemente.

Assim que saiu do ônibus, começou sua procura. Perguntou para todos que encontrava sobre Rosilaine Machado, mas ninguém parecia saber sobre ela. 

“Eu acho que eu sei sim”, finalmente responde um pescador local. “Ela trabalha na mansão indo pro Silveira, né?”

“Acho que sim”, respondeu Mauro sem nenhuma certeza. Mas, era a única pista que tinha e ele não iria desperdiçá-la.

Demorou, mas conseguiu chegar na tal mansão indo pro Silveira. 

Enquanto andava, pensava sobre o que iria falar, e principalmente em como iria pedir desculpas por ter se afastado dela. 

Tomou coragem e bateu na porta, sendo atendido pela empregada da mansão. 

Que era Rosilaine. 

“Mauro?”, ela perguntou, extremamente surpresa e desconfortável.

“Oi, Rosi”, ele respondeu, também sem jeito. 

E durante as próximas duas horas eles conversaram e descobriram tudo o que havia para descobrir; o principal sendo que Rosilaine realmente era uma mentirosa, mas que a parte sobre bipolaridade já era exagero.

Sem rumo, sem dinheiro e sem lugar para ficar, Mauro volta pro píer onde conheceu o pescador, na esperança de encontrar um emprego que o ajudasse a ficar no lugar mais bonito que já viu.

Até hoje, ele nunca admitiu não ter falado nada para manter Clara ao seu lado, e muito menos que prima era a empregada ao invés da patroa. 

E na sua vida de mentiras e mediocridades, Mauro segue sozinho.

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