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quarta-feira, 21 de abril de 2021

Só Mais Um

Enquanto guardava nas caixas de mudança todos os objetos que acumulou em cinco anos, Roberson passeava por suas memórias. 

Não seria a primeira vez que ele iria se mudar. Na verdade, essa experiência o acompanhava desde quando era uma criança, apenas seguindo seus pais em qualquer nova aventura que estivesse por surgir. 

Sempre que ele se encontrava em algum lugar, era a hora de ir embora com sua família. Até que foi a hora de ele buscar um lugar próprio.

“Fui aceito em Minas Gerais”, Roberson conta aos seus pais com um sorriso no rosto. 

Pouco tempo depois já estavam todos na cidade do interior mineiro que Roberson chamaria de casa pelos próximos cinco anos. 

Quando foram embora, sua mãe fez algo que sempre fez em sua frente; segurou o choro. Era hora de deixar seu filho crescer. Apesar, é claro, de que as lágrimas viriam em dobro no carro alguns minutos depois de se despedirem. 

Logo em sua primeira noite sozinho, Roberson já conheceu o bar mais próximo de seu novo apartamento. Como sempre foi um garoto extrovertido, não demorou para não estar mais bebendo sozinho. 

“Finalmente, liberdade”, Roberson pensou consigo mesmo. E ele estava certo. Era agora livre. 

E nos próximos cinco anos ele viria a descobrir, uma noite de cada vez, o que ser livre realmente significava. 

As pessoas que iria conhecer, as idiotices que iria fazer, o medo que iria passar e a saudade de casa que iria sentir, em especial do carinho e segurança que seus pais sempre lhe deram. 

Mesmo que no começo tudo tenha sido bom, ainda no primeiro ano a solidão começou a pesar. Sim, ele tinha amigos, mas Roberson sentia que esses não iriam durar. 

“Amizade de bar”, um de seus professores costumava falar. E o termo o agradou. 

Inclusive, o agradou tanto, que se você pedisse que ele expressasse o melhor termo possível para descrever o seu apartamento, ele diria “apartamento de bar”. 

E enfim que, após cinco anos de uma vida que todos sempre pareceram saber que não duraria para sempre, a jornada de Roberson chegou ao fim. 

“A gente te espera aqui!”, sua mãe anunciou animada enquanto ouvia de Roberson o horário que ele iria chegar em casa. 

Cada objeto guardado em uma caixa era um novo turbilhão de memórias e sentimentos para Roberson, que nem conseguia compreender o fato de que essa seria a última vez que sairia desse apartamento para ir à casa de seus pais; que, em breve, seria sua casa novamente. 

Diferente de muitos de seus colegas, Roberson não estava saindo da faculdade com um emprego já combinado. Em parte por não ter as conexões que seus colegas tinham, em parte por talvez nunca ter imaginado que, um dia, a faculdade chegaria ao fim. 

Levando tudo isso em conta, ele deixou suas coisas arrumadas e, por uma última vez, desceu até o bar. 

Já não havia pessoas que ele conhecia, apenas calouros que estavam por adentrar no mesmo ciclo do qual nosso Roberson estava por sair. 

A única pessoa que Roberson ainda conhecia que estava por lá era o garçom do bar, o Zeca, que o atendeu fielmente durante os cinco anos em que esteve lá. 

“Vai embora amanhã mesmo?”, perguntou Zeca.

“Vou sim. Entregar o apartamento e já vou.”

“Esse vai dar saudade, vai não?!”

“Ah, até que vai… mas é só mais um.”, mentiu Roberson.

Mentiu, pois não era só mais um. 

Era o seu, e o seu primeiro. 

Era, sim, só mais um; mas um que ele nunca iria esquecer. 

2 COMENTÁRIOS

  1. Morar com os pais de fato é maravilhoso, tirando a parte da liberdade, mas temos toda a segurança, companhia, e tudo mais que eles fazem. Coisas que quando saímos de casa, não encontramos.

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