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quinta-feira, 17 de junho de 2021

WhatsApp

Minhas crônicas de quinta.

Há pouco tempo, quando a gente ligava pelo celular (e não tanto para ele), What’s Up? era aquela música do 4 Non Blondes cujo refrão ecoava como um nostálgico hino, quase sempre cantado em coro pelas vozes de bons amigos reunidos. Algo bem específico. De pouco mais de meia década para cá, uatizapi se tornou um termo tão banal e comum quanto a expressão “tô com fome”. A gente ficou tão íntimo e dependente dessa ferramenta que nos referimos a ela com carinho: atizapi, zap zap, uats, ats, zap. Todo mundo tem! Todo mundo pede! Todo mundo passa! Todo mundo usa!

De serventia universal, criamos todos uma relação de amor e áudio por esse aplicativo. As conversas duram mais – não tem fim, não dizemos tchau e desligamos – mas respondemos no outro dia e às vezes esperamos dois para concluir um diálogo qualquer… o tempo é outro. Há pausas, por vezes, constrangedoras demais para a pulsante necessidade comunicativa que temos nós, pobres mortais.

No último ano, antes da pandemia, uma crush que andava meio sumida para mim (e eu para ela), me chamou no zap:

“- Oiee :)” (terça, 20:21)

Na manhã seguinte, eu respondi (não quis ser tão solícita):
“- Oiii, sumida! Como vc tá?” (quarta, 10:30)

“- Eu tô bem e vc??” (quarta, 14:17)

E assim que saí do meu serviço, a primeira coisa que fiz foi respondê-la com toda a atenção do mundo!
“- Melhor agora! kkkk” (quarta, 17:00)

Ah! Eu sei que eu fui péssima. Das infinitas respostas possíveis eu escolhi a pior. Que vergonha! Parece que meu dedo escorregou ou que o teclado inteligente escreveu por mim. Só que eu já odiava teclado inteligente e por isso não o usava, e pelo amor de Deus, meu dedo escorregou coisa nenhuma.

“Melhor agora! kkkk”… que proeza! Palmas para mim.

Assim que o vexame deu uma trégua e eu pude pensar em algo, já não adiantava apagar a mensagem (bendita função!) pois os dois tiques azuis mostravam que a crush havia lido. Fazer o quê…?

WhatsApp é um mundo à parte. Conversamos com alguém que está longe e construímos um tempo diferente. Tempo e espaço seriam piada se não estivéssemos presos à essas leis físicas na vida. Mais dia, menos dia, a realidade prova para que veio o app: para ser um meio de comunicação, e não o fim dela. Divaguei.

Para minha surpresa, uma notificação:

“- Hahaha, bora sair hj?” (sexta, 10:03)

“- Bora!!” (sexta, 12:35)

Saímos naquela sexta! Fomos ao karaokê, que também era barzinho. Bebemos algumas, conversamos demais e à certa altura da noite, estávamos eu, ela e a turma toda lá gritando em coro: “What’s goin’ ooooon??!

No dia seguinte mandei um bom dia ao qual ela respondeu no domingo.






Luana Carvalho
Arquiteta, cria da Unesp - Presidente Prudente. Brasileira, com 27 anos de sonho e de sangue, e de América do Sul. Escrevo porque não sei guardar segredo.

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