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quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Um relato nas entrelinhas

Minhas crônicas de quinta.

Hoje, encontrei um texto recém escrito nas entrelinhas da pandemia, assinado por um tal de Sujeito Coletivo. Não hesito em compartilhar o seu conteúdo com vocês. Segue:

“Brasil, 14 de janeiro de 2021

Caro leitor das entrelinhas,

Há três semanas era véspera de Natal. Naquele dia, de acordo com o boletim diário do Consórcio de Veículos de Imprensa, foram registrados 57.753 novos casos e 768 novas mortes causadas por Covid-19 no Brasil em 24 horas.

Quase 10 meses depois da primeira confirmação de um infectado pela doença no país, batíamos a marca de 7.424.430 casos e 190.032 mortes confirmadas desde o início da pandemia. Depois de tanta, mas tanta notícia – real e falsa –, alertas diários, decretos restritivos, declarações presidenciais e consequentes notas de repúdio…, enfim, eu era um caso suspeito.

Bem, conforme o site da OMS – fixado como alerta no Google – estão entre os sintomas mais comuns da doença: febre, tosse seca e cansaço. E entre os menos comuns: perda de paladar ou olfato, congestão nasal, conjuntivite, dor de garganta, dor de cabeça, dores musculares ou articulares, erupções cutâneas ou descoloração dos dedos, náusea ou vômito, diarreia, e, por fim, calafrios ou tonturas. Naquele dia eu sentia os 3 sintomas comuns e mais outros 4.

Estava bem mal e passei o Natal no meu quarto. Não podia correr o risco de contaminar os amores que moram comigo: meus pais, irmãos, e a senhora minha avó. Não vou mentir… sequer pensei nisso dias antes quando aceitei o convite para o aniversário da Marcela. Torcia, então, para que só eu estivesse doente em minha casa, lugar onde, sinceramente, a quarentena havia acabado faz tempo.

Uma semana depois, na véspera de ano novo, eu ainda estava mal. Embora não tenha confirmado a doença em laboratório – fora, portanto, dos números oficiais – definitivamente, vivi a Covid. Apesar da minha imprudência e falta de empatia, uma coisa eu reconheço: tenho procurado, sempre, as informações corretas e ouvido as pessoas sérias.

Naquela tarde, 5 amigos foram comemorar juntos a chegada de 2021 em uma chácara alugada. Até me chamaram, mas eu disse que ainda estava mal. Então, acharam por bem que eu não fosse, porque era um caso suspeito. De todo modo, finalmente, tudo o que eu queria era ficar em casa.

Hoje, passadas 2 semanas da virada, a Marcela me ligou e eu atendi:

– Alô?

– Oi Sujeito, como você tá?

– Oi, Ma! Eu tô bem melhor… Não 100%, mas tô bem.

– Nossa, que bom, mi. E era Covid mesmo?

– Eu tenho certeza que sim, mas não fiz exame não.

– Poxa… mas que bom que você melhorou…! E cê não sabe. O Marco, a Júlia e o Gabriel tão com suspeita de Covid. E pelo jeito é mesmo, viu.

– Caramba, amiga… que bosta, hein. E você, fez o teste?

– Eu não… eu tô bem, sabe? Não sei que milagre, mas acho que eu não peguei não.

– Gente, mas de quem será que eles pegaram? Faz tempo que eu não vejo vocês.

– Eu não sei, migs! Eu tô de cara.

Pouco depois, desligamos. Confesso que me surpreendi com a notícia, embora eu saiba que o pressuposto em uma pandemia é de que todos são suspeitos, inclusive a Marcela.

Espero que esteja bem,

Sujeito Coletivo”

Moral da história: há mais coisas nas entrelinhas do que sonha nossa vã filosofia.

Luana Carvalho
Arquiteta, cria da Unesp - Presidente Prudente. Brasileira, com 26 anos de sonho e de sangue, e de América do Sul. Escrevo porque não sei guardar segredo.

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