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quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Nóis do interior

Minhas crônicas de quinta.

Nóis não tá na capital, quem dirá no litoral! Aqui nóis não tem metrô, só busão na região. Falo aqui do interior do interior: o famoso interiorzão.

Aqui nóis fala puxado, curva o “R” igual ingrêis… right? Nóis gosta de falá assim, é bão demais, sô. Mas, se apertá, nóis fala difícil tamém. Veja só:

Há, de certo, o interior em primeira instância, que a grosso modo e com fins denotativos, se refere à parte interna de algo. Nesse, situam-se capitais, a exemplo de Brasília. A atual capital do país – concretizada pela política de Juscelino e pelas mãos candangas – foi geolocalizada com base em uma ideia antiga, atribuída ao Marquês de Pombal (1751): a interiorização da capital. Do litoral (Salvador – BA e, depois, Rio de Janeiro – RJ) ao Planalto Central (Brasília – DF/GO).

Viu? Se bobiá nóis até rima, porque nóis sabe as palavra que combina.

Pois bem: eu falo do interior em segunda instância, onde a zona urbana é menor que a rural. Onde tem mais pasto do que casa, e mais casa do que prédio. Onde a gente compra alface do produtor local. E onde tem quem morre pela calma e quem vive pelo tédio.

Tem gente que acha que o povo do interior é bobo e ingênuo. Mas “de bobo nóis não tem nada”, como disse Gino & Geno, “só a cara de coitado”. É que a gente é tranquilão: anda com o celular na mão e nem disfarça. Nóis conversa e toma tereré na praça, seja do bairro ou da Igreja Matriz. Pra ser do interior tem que ser raiz. Ou não. Mas, passeio no interior tem que ser raiz!

Quando os parente vem da capital – ou de outro interior -, nóis leva eles no corgo, ou no rio. Nóis não desce nenhuma serra… pega só estrada de terra. De a pé, carro ou carroça, lá nóis chega e pula na poça, toma um banho e faz piquenique. E depois do pôr do sol – o mais lindo e colorido – se ainda sobrar pique, nóis acampa e vê o céu apontano suas estrela pra terra dos coronel.

Até mesmo por aqui, tem o povo mais urbano. A galera underground, e os intelectual. Nas lojinha da avenida principal, a pergunta é sempre a mesma:

Cê é filha de quem?

E eu sempre respondo:
– Do Nelso.

Que Nelso?

O Nerso da Capitinga.

Ahhh tá, o Nerso. Já pesquei muito com ele!

Ninguém é anônimo aqui. Nem tenta. Todo mundo te conhece, e conhece sua mãe, sua vó e o seu pai. Já estudou, trabalhou ou foi pra farra com eles. Todo mundo é meio que parente. Às veiz nóis descobre que o amigo é um primo de 2º ou 3º grau. E não adianta: volta e meia cê encontra os colega de infância e os parente mais distante, num churrasco ou no Natal.

Entre uma par de coisa que eu podia falar, deixei a mais chique pro final: quando nóis morre, dessas morte natural, a TV local não fala no Jornal… passa um carro anunciando pela rua o funeral: “Morreu a fulana, filha de fulano de tal”.

Luana Carvalho
Arquiteta, cria da Unesp - Presidente Prudente. Brasileira, com 27 anos de sonho e de sangue, e de América do Sul. Escrevo porque não sei guardar segredo.

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